Médium ou Adepto?

Se tem algo que me irrita no hermetismo é como ele desfaz daquilo que desconhece ou que pode potencialmente diminuir seu valor auto-percebido.

Por isso, tomei alguns minutos para, assim como fiz com Blavatsky (que, aliás, estava a toda nessa onda), comentar um pouco sobre a visão hermética da mediunidade.

Como estudante de hermetismo por um bom período, acupunturista e médium, tenho algumas coisas a falar a respeito – afinal, frequentei ambos os meios.

Vamos a isso.

 

1 – Não me compare um médium descontrolado a um adepto, caralho!

 

O principal ponto a considerarmos nessa análise será o primeiro.

Enchem a paciência os “adeptos” (que não conseguem nem se manter razoavelmente magros, exercitados e saudáveis, que o diga “controlar as forças inferiores”) ao falar que o médium é um “descontrolado”, “totalmente passivo” perante o que lhe ocorre.

ISSO É MENTIRA.

É IMPOSSÍVEL uma pessoa ser “totalmente passiva” quando alguma outra entidade está COMPARTILHANDO O CONTROLE DE SEU CORPO.

Mediunidade, assim como possessão, não são “morrer e outro pega o seu corpo no seu lugar”. Há diversos mecanismos mediúnicos, isso é certo, mas não há, de maneira alguma, a possibilidade de uma pessoa ser dominada sem que sua vontade, mente e emoções influenciem no que está ocorrendo.

É fato que, caso uma inteligência muito mais treinada e desenvolvida do que a do médium decida possuí-lo à força, isso é possível. Contudo, esses casos, strictu sensu, não são de mediunidade, mas sim de obsessão, pois vão contra a vontade da pessoa.

Não só isso, como, para que o ser que possui a capacidade de possuir à força tome o médium tão totalmente a esse ponto, é necessário que ou o médium possua uma atitude e personalidade doentes, submissas, ou que a força desse ser seja tamanha que ninguém, nem mesmo um “não-médium” consiga impedí-lo de agir.

E nisso lhes garanto que espíritos podem possuir “não-médiuns” tanto quanto possuem a médiuns.

Mediunidade é uma faculdade, uma capacidade de sensibilizar-se aos espíritos – mas isso não implica que o ser, ao se tornar mais sensível, se torne mais fraco.

Tal associação de sensibilidade com fraqueza, tão típica do hermetismo (e de outras doutrinas solares descompensadas, que não possuem o desenvolvimento correto da corrente lunar), só se verifica em casos onde a pessoa em si possua uma atitude derrotista e vitimista.

Coisa que, aliás, muitas vezes acontece no próprio hermetismo – terminando em casos de obsessão que vão lá no meu terreiro pra eu resolver.

Enfim.

Há muita arrogância, prepotência, desconhecimento e desvalorização nessa colocação.

Os textos clássicos mencionam como o médium é um ser “passivo”, “sem controle” sobre os eventos, e com isso demonstram como aquele que escreve não se aprofundou na mediunidade e em seus estudos.

E aqui não falo em se aprofundar como o fazem muitos espíritas ou mesmo umbandistas, por exemplo, apenas aprendendo a se tornar mais e mais passivos perante os espíritos.

Digo se aprofundar no sentido de conversar com os espíritos, conhece-los, trabalhar com eles como amigos, conhecidos, mestres e professores – e não de forma quase “atéia” como vejo muitos trabalhando, deixando seus corpos parados e evitando ao máximo sequer pensar na ideia de que tem um morto usando o seu corpo.

Claro, daí podemos falar que a “maioria” dos médiuns não é assim.

Meu amigo, a “maioria” dos adeptos quer fazer goécia pra comer a colega de escola e amaldiçoar o namorado dela!

A “maioria” dos hermetistas se acha foda, mas tem 5 casamentos fracassados, filhos mal criados, são parte de seus círculos íntimos de “pequenas máfias”, são manipuladores e elitistas, e ainda se acham corretos e capazes de dominar as “forças inferiores” porquê quando vem um espírito cheio de ódio e rancor que quer sair por aí metralhando e estuprando eles não se sujeitam a ele e ainda passam liçãozinha de moral!

Isso não é prova de se ser poderoso ou estar no controle da situação. Não matar, não estuprar, não mentir, não destruir patologicamente tudo ao seu redor é o mínimo para se ser considerado um ser humano normal, não importa se você está em um processo de descoberta espiritual ou não – pois se a sua “descoberta espiritual” e “iluminação” te deixam pior do que você estava antes de começar o processo, algo está de errado!

Enfim.

Falemos dos ideais aqui.

 

2 – O Médium Ideal

Centrado. Controlado. Consciente. Sensível. Capaz. Protegido e Auto-Regulado.

O médium ideal está perpetuamente em vigilância de si mesmo. E aqui não digo uma vigilância tensa e impossível de se manter – digo a vigilância advinda de um nível de consciência onde a pessoa está capaz de perceber e fazer julgamentos subconscientes a respeito daquilo que acontece com ela.

Se o médium é mais sensível que a maioria, ele também é mais perceptível e capaz do que a maioria.

Enquanto a maioria das pessoas ouve os sussurros dos espíritos em seus ouvidos astrais, mas os tem tão entupidos que o sussurro é apenas um murmúrio ininteligível, o médium ouve de fato – mas sabe calar o espaço ao seu redor, e, inclusive, criar espaços de silêncio para si.

“Como?!” – se pergunta o hermetista – “ele não é mago!”

Por intuição – respondo eu – pois o médium ideal não precisa saber para fazer. Assim como todo ser em contato com sua intimidade e com seu Eu Interior, com o seu Eu Divino interior, acima de tudo, o médium é onipotente, tanto quanto qualquer hermético ou outro ser desenvolvido pelo caminho solar.

Por meio do conhecimento intuído e percebido, o médium ideal é tão capaz de gerar em sua própria vida seu campo de flores, como também navegar as águas do universo inteiro sem se preocupar com tentar controla-las ou entende-las.

Por meio do controle da sua própria vibração, ele não precisa ir a lugar algum – as coisas virão a ele, e tudo que vier será aquilo que ele quer.

“Ah, mas isso é coisa de Adepto!” – Não meu amigo. Passividade, intuição e o feminino (masculino cabalístico) da criação não são coisas de adepto. De quem age, faz círculo, cria servidor, bota o pau pra fora e bate uma dizendo que é a “varinha” que está “fertilizando” o mundo para gerar o efeito.

O médium ideal é um ser feminino. Não necessariamente mulher, mas que desenvolveu todo o seu poder feminino – e esse poder inclui a total capacidade de só ter ao seu redor o que se quer, e nada mais, além da plena aceitação de tudo que se quer.

Pois o poder feminino é aquele imanente – ele não se separa de nada, ele é permanente e perene.

É o espaço e o tempo, por exemplo, enquanto o poder masculino é crescer e morrer.

Quem pode crescer ou morrer se não houver onde e durante quanto tempo?

É perfeitamente possível ser eternamente passivo, sem movimento, sem atividade. Mas é impossível ser ativo sem haver um onde, sem haver um meio, um local, um algo passivo onde se realize a ação ativa.

Daí que o médium ideal não precise se preocupar com qualquer espécie de distúrbio, especialmente psíquico, demônio ou coisa que o valha – ele não age com base no psiquismo, não age com base em racionalidade, e dela não necessita.

Ele manifesta o seu Ser Perfeito e Uno através da sua própria passividade, e, em suma, o ápice do médium perfeito é ser médium de si mesmo – de sua própria divindade.

O médium perfeito não é um profeta. Ele é um Avatar. Ele é um deus encarnado. Ele é aquele ser que não precisa pensar, agir, julgar ou o que quer que seja – todas as suas ações são perfeitas porquê o seu ego, isso é, toda a sua constituição psíquica (além da energética e física, claro) dá passagem e sabe ficar passivo em frente ao seu Cristo.

 

 

3 – O Adepto Ideal

Quem é o adepto ideal?

Duas palavras aparecem em mente quando lemos a respeito dele:

1 – Controle

2 – Elevação.

Controle do quê? Como assim elevação?

O Adepto ideal tem controle total de si, possuindo completa consciência do que faz. Cada ato seu é consciente, e passa, acima de tudo, por sua mente consciente.

Já a elevação diz respeito ao teor de seus pensamentos.

O Adepto ideal tem total controle racional de suas ações, sendo um ser extremamente ativo e mental – é sua mente, julgando, pensando, considerando, calculando, que lhe dá os direcionamentos ideais de como agir – e é por meio de um código moral e uma série de valores e pensamentos extremamente elevados, juntamente com um incrível desapego de qualquer necessidade do ego, que ele consegue aquilo que muitos nesse meio buscam – a servidão por meio do contato com o Sagrado Anjo Guardião.

QUÊ ? SERVIDÃO?!!!!

Sim. Servidão.

Absolutamente todos os herméticos buscam mestres, guias, seres de incomparável capacidade e divindade que os guiem. Que lhes digam o que dizer.

E o ser de maior proximidade disso é, obviamente, o Sagrado Anjo Guardião (ou Eu Superior se você for teósofo).

Acima dele, apenas “deus” ele mesmo.

Assim, o Adepto é uma grande mente, um algo extremamente ativo, que continuamente busca o seu SAG ou o seu Eu Superior, conversa com ele, e recebe instruções do que deve fazer.

Diferente do médium ideal, que se entrega ao seu Divino Interior e deixa que o Divino Ande Pela Terra, o Adepto Ideal conversa com o divino e aproxima a terra do divino – ele, enquanto um ser menor e servente, procura compreender o que o divino busca, e daí moldar o mundo segundo o controle que possui, de acordo com a vontade do divino.

O Adepto ideal é um ser muito próximo do Demiurgo, infinitamente próximo, eu diria – pois é justamente esse ser, dual, separado, eternamente se colocando com diferente do Divino Interior, e que segue suas ordens e conversa com ele.

Muitos herméticos até sonham com a entrega e dissolução no divino, alguns até mesmo maldizendo o demiurgo universal, mas aprender a se entregar e deixar-de-ser é o caminho oposto ao do se solidificar e condensar enquanto um ser com conceitos, pensamentos e ações elevadas e morais.

Enfim.

Vamos agora ao que é menos-que-ideal.

 

4- O Médium Menos-Que-Ideal

Se o médium ideal é o divino andando pela terra, é o ego que aprendeu a arte da passividade e se tornou um vaso ou receptáculo totalmente livre da necessidade de si mesmo, então o médium menos-que-ideal meramente aprende a passividade.

Se ele aprende a ser passivo para o divino dentro de si, para espíritos de seres mais sábios que ele (egos que aprenderam a ser passivos o suficiente para se manterem como pseudo-elementais e ainda assim manterem nível humano ou sábio de existência), ou para até mesmo o divino dentro de outros, é papo para outro dia.

Em nota, gostaria de dizer que é lamentável o quão pouco os herméticos costumam compreender do plano astral – lamentável, mas não surpreendente, pois a natureza “ilusória” desse mundo é, de fato, conhecida apenas quando unimos sensibilidade e perseverança, ambos, na busca da base que o constitui.

Sem se treinar as artes lunares ninguém jamais entenderá como podem os espíritos dos mortos permanecerem após a morte, e acharão que há algo a ver com crendices como sangue sugado vampiricamente, ou elementais usando cascões, ou espíritos presos aos ossos do corpo, coisa que o valha.

Bem. O médium menos-que-ideal, portanto, é um ser com sensibilidades mais afloradas que os demais, e que decidiu que aprenderia a ouvir essas sensibilidades – que ao invés de ignorá-las ou inventar teorias a respeito delas, ficaria quieto e deixaria as coisas acontecerem (esperamos, em uma busca de compreender o que acontece).

Perigoso?

Claro. Qualquer espécie de “se colocar nas mãos de” ou “ir no fluxo e ver o que dá” é perigoso.

Afinal, você pode desde estar sendo guiado por um espírito amigo e muito cuidadoso para o seu próprio bem-estar a desenhar o símbolo do armageddon e danação eternas.

Mais perigoso do que ser um magista iniciante?

Não.

 

5 – O Adepto Menos-Que-Ideal

Como alguém começa o caminho dentro do Hermetismo?

Às vezes por meio de um mestre – mas quase sempre por meio de um livro qualquer em uma biblioteca meio empoeirada.

Ou, nos dias de hoje, por meio de um site de esoterismo por aí.

O aspirante a hermetista, por sua vez, pode não ser considerado adepto já ali.

Contudo, se o sensitivo que decidiu deixar o corpo parado e “ver no que dá” é considerado um “médium passivo se entregando a forças desconhecidas”, vamos rever o que exatamente é um hermetista.

Um hermetista é alguém que, por meio do pensamento e da mente, consegue separar-se (ou perceber racionalmente e mentalmente a sua separação) de seu Divino Interior, e dali conversa e serve a esse divino.

Se o sensitivo que “testa as águas” da passividade no que diz respeito a qualquer espécie de “entrega de si” é um “médium descontrolado”, acredito que o curioso que “testa as águas” da atividade no que diz respeito a qualquer espécie de “especulação sobre si” é um “aspirante a adepto”, ao menos.

Assim sendo, que riscos corre esse ser?

Vamos enumerar alguns:

1 – Virar ‘pilha-de-egun’ (ser vampirizado através do uso da força psíquica empenhada pela pessoa para pensar e raciocinar…. por exemplo por cima de textos herméticos complexos e confusos).

2 – Chamar o que não deveria (quantos casos de gente que foi desenhar um sigilo no chão ‘por brincadeira’ e acabou na sala de desobsessão com a gente…).

3 – Ter o ego e a mente comidos de dentro para fora por blocos e âncoras mentais invasivos.

Obs : Sabe aquele povo totalmente piradão das ‘esquisoterices’ que de vez em quando aparece? É, muitos são vítimas disso aqui, e você pode virar uma também – basta se meter nos espaços mentais errados sem a preparação mental adequada.

Dentre outros.

 

Conclusões

É complicado falar do que é “mais perigoso” ou “menos perigoso” no hermetismo, no ocultismo, no esoterismo… em qualquer campo desse tipo – porquê parece que todo mundo sempre puxa sardinha pro seu lado.

O médium sempre vai ser o zé-bostelho que um dia começou a gritar desesperado e coisas começaram a voar ao redor dele.

O hermetista vai ser sempre aquele cara que foi iniciado nas artes místicas por um antigo mestre, que então lhe deu os avisos e toda preparação para lidar com as forças que evoca.

Mas sabia que o oposto é bem mais comum, ao menos no Brasil?

Talvez lá nos idos de 1800, quando os herméticos estavam brincando de vir ao mundo, isso fosse diferente – mas hoje, o mais comum é um moleque de internet começar a se achar mago e se f*der do que um médium descontrolado ficar obsediado a esse ponto – pois temos hoje em dia pessoas que são médiuns desenvolvidos, com anos de prática, e sabem guiar os novos médiuns.

Por favor, não comparemos médiuns espontâneos sem mestres, sem guias, sem nada que lhes ajude, com hermetistas cheios de treinamento e preparação.

É tão injusto quanto comparar o cara que descobriu que se ficar vibrando a garganta “dá legal” (mas na realidade está ativando algum centro de força e o desequilibrando) com um médium desenvolvido em uma casa respeitável com auto-consciência e centramento.

Esse papo de “médium é um ser passivo e doente” é coisa do passado. Vamos reconhecer que os tempos mudaram e que existem sim conhecimentos ancestrais valiosíssimos na mediunidade – e que é hora de o hermetismo sair de cima das suas botas de salto alto.

Elas fedem a bosta de cavalo das ruas enlameadas da Londres medieval.

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2 Comentários

  1. Caceta que texto bom. Muito, muitíssimo esclarecedor. Dentro do meu conhecimento e experiência parece existir um abismo entre os cultos brasileiros e as ordens iniciáticas. Li esse desmerecimento da mediunidade uma vez, de um autor considerado um mestre num grupo de estudos que participo. Ao mesmo tempo, fui aceito sem problemas mesmo de declarando umbandista.
    As reflexões e questionamentos trazidos são materiais que me serão muito úteis. Fazendo uma consagração astrológica, vontade nele! Na ayahuasca, se entrega ou é pêia. Incorporações. Fico questionando muito: vai deixar eu falar? Ou, fica quieto, deixa eu trabalhar. Entrega! Ler tarô: análise de números, símbolos e localização na árvore da vida. Oração para preto velho: acalma seu coração zifio.
    Mas parece e que há um ponto de encontro. Na prática quando elaboro um ritual, em tentativa e erro, tento harmonizar. Hora de descer a vontade no intuito e entregarse ao que possa ocorrer. Ou o inverso, acender uma vela, defumação, canta canta canta, depois diálogo.
    À mim, os exercícios de meditação, visualização, orações, com hora, duração e anotações metódicas ajudaram muito a ligar com a entrega mencionada no texto.
    Coisa simples né, humildade de reconhecer a validade de outras tradições. E, antes, bom senso. Ritos ancestrais, que acompanham a humanidade a tanto tempo não tem nada a ensinar???

    1. Obrigado pelo elogio. Fico feliz em ter sido de ajuda, mesmo que esse texto não tenha sido publicado como um texto regular (justamente porquê as colocações aqui são bem fora do comum do meio “interneticocultista”).

      Mas é bem isso mesmo. Há momentos de atividade e de passividade em qualquer prática. Ler tarô mesmo, muitas vezes depende da intuição – por mais que você estude e faça as coisas de maneira pitagórica, eventualmente algum nível de intuição terá que ser trabalhada.

      O problema é só como o cenário iniciático brasileiro deturpa o feminino e seus mistérios. Um certo nível de deturpação tem em todo lugar, mas o hermetismo se gaba da própria deturpação. Isso é irritante!

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