Destilando Ódio a Blavatsky

Boba! Feia! Yogi gorda! Adepta de olho inchado! Fumante que reclama que os espíritos só vêm nas suas sessões para fumar, beber e falar putaria!

No meio oculto, alguns personagens sempre têm destaque – especialmente no hermetismo. Papus, Eliphas Levi, Crowley, Agrippa…. e, porquê não, Helena Petrovna Blavatsky. Contudo, ainda que alguns tenham sido muito conhecidos em sua época e até mesmo pelos seus posteriores, é muito difícil vermos alguém que tenha uma opinião moderna sobre esses autores.

Claro, opiniões todos têm – mas poucos textos nos dão uma ideia de como é sua escrita e qual é a sensação de ler o que o autor escreve. Mais importante ainda, pouquíssimos textos discutem a filosofia básica do autor e suas influências.

Pois bem. Façamos isso, pois acho que vale a pena.

 

Deixando a brincadeira de lado um pouco, estamos falando de uma “grande ocultista, adepta e maga branca” que terminou a vida entravada em uma cadeira de rodas. Isso diz bastante a respeito de seu entendimento das técnicas hindus de yoga, queima de karma por meios outros que o sofrimento, cura e alcance de poderes e capacidades sobre-humanos (siddhis).

 

Como é ler Blavatsky?

Durante um certo período de tempo, me encantei pela teosofia. Ela era cheia de problemas, é claro – especialmente na rigidez – mas me dava uma fonte clássica para diversas percepções modernas, como aquelas da umbanda. Contudo, com o tempo me senti deslocado – havia lido tanta coisa avulsa aqui e ali, mas nunca havia lido as obras básicas sobre o assunto. E, claro, quando falamos de teosofia, a primeira pessoa que nos vêm à mente (ou ao menos me veio à mente na época) é a nossa querida Blavatsky.

*suspiro*

Que erro. Que. Erro.

Primeiramente, os teósofos em si nunca deram muito valor à madame. Sua doutrina e personalidade conflitantes aparentemente sempre afastaram pessoas de sua vida, e a sociedade teosófica que ela ajudou a fundar nunca foi exclusivamente dela e muito menos glorificava (ou glorifica) sua existência até hoje.

Muitos teósofos, aliás, preferem as obras de Charles Webster Leadbeater ou até mesmo dos próprios Platão e Eliphas Levi. Já “segundamente”, há motivos pelos quais muitos odeiam Blavatsky (além de sua hipocrisia e/ou duplipensar).

Pois bem. Decidi ler Blavatsky. Mais especificamente, sua obra inicial – Isis sem Véu – e depois sua obra mais famosa – A Doutrina Secreta. Comprei ainda o Livro Perdido de Dzyan, achando que era algo de valioso, quando é só ela “traduzindo um manual perdido antigo” que ninguém mais viu além dela…

Bem, vamos a isso.

 

 

Pera, Isis nunca usou véu…

Como é ler Isis Sem Véu?

Terrível.

Blavatsky não expõe suas ideias. Joga todas elas em um amontoado sem sentido de citações, julgamentos, críticas, irritações e auto-glorificações. Sua principal colocação é a de que é senhora da verdade (ela literalmente diz que a “Verdade” está com ela e que quer receber o “respeito devido” a quem possui a “Verdade”) e de que vai explicar como e porquê todo mundo está errado, exceto ela. E esse é o maior problema de TODOS os livros de Blavatsky. Ela se ocupa mais de criticar os outros e falar asneiras sobre a religião, ciência e ocultismo alheios do que passar conhecimento adiante.

Ao ler Isis Sem Véu, a pessoa mais tem em sua frente um amontoado de julgamentos de valor sobre pessoas e personalidades do final do século XIX do que um livro filosófico e/ou metafísico. O conteúdo metafísico existe, não se enganem. Mas não só ele mesmo é pobre – falarei mais adiante – como está misturado com uma pletora de conhecimentos nada relevantes sobre o sr. não-sei-quem que falou não-sei-o-quê na palestra X ou Y que hoje em dia já foi perdida na história – ou do grupo tal ou qual que se pronunciou nos jornais. Ou da pessoa daqui ou dali que emitiu uma opinião/carta pública.

 

Bem isso.

 

Sério. Seria um livro de fofoca se não fosse tão chato que nos faz dormir.

Bem, isso é ler Isis Sem Véu – ser mergulhado em um poço de críticas, irritações e maldizeres sobre pessoas “ilustres” (que ninguém conhece, pois não sobreviveram mais que uns 10 ou 20 anos em sua posição de fama) da época e ainda ser influenciado com técnicas de auto-empoderamento (da autora) para tomar por verdade incontestável o que ela diz.

Talvez um pequeno exemplo ajude (já vendi os volumes, então vou criar de cabeça):

 

Ora pois, se há uma substância primordial, é claro que tal substância não pode associar-se se não com as mais dignas formas de existência. Por isso da doutrina dar tanto valor aos números. Um exemplo contrário é do senhor Valois, que propaga incessantemente suas ideias sobre a comorbidade da substância original e sua incapacidade de ser associada a outras  coisas que não o mal e a forma. Ora pois, o senhor Valois já criticou  essa presente autora, mas é de nossa opinião que não compreendeu  a essência do que dissemos sobre o valor das obras do senhor Randel. Diz o senhor Randel, em sua obra Dolce Amante Parasuti :

Quando oposta a Virsudi, Parasuti se coloca como bela parita.

Con questo nocci, é claro que a vida poderia ser mais obtrusa,

mas é de pouca valia falarmos sobre obtrusão para com os leigos.

Está claro aí o porquê do senhor Valois estar equivocado. Em sua crítica à autora,

Publicada essa nas páginas de famoso jornal de Espanha, diz, sem pudores:

“Mme. Blavatsky dá grande ênfase ao que não deve ser enfatizado.

As verdades ocultas são outras, pois sua percepção do tempo é por

demais ocultadora dos fatos perceptivos. Ao aceitarmos que o mundo

se conquista ao se abrir mão do bem, só podemos encontrar paz

Não é de toda errada a colocação do sr. Valois. Porém, são incompletas, e erram em certo ponto. Mais especificamente, erram ao considerar que tudo pode ser perdido em meio ao mal, quando há algo que jamais pode ser perdido. Ora pois, já nos diz Platão:

“Coé.”

Aos que não conhecem, o grande mestre tinha uma certa paixão pela escrita oculta, como podemos notar ao ler em sua famosa e augusta obra, “Pipipauti” ….

 

Platão intensifies

 

E isso se segue até o final do livro, podendo todo um capítulo de cinquenta páginas ser resumido a : “Platão tinha conhecimentos ocultos que não foram passados claramente, mas ao lermos todas as suas obras, além de obras de outros autores em outros tempos, fica ‘claro’ que ele faz alusão a um mistério universal em várias passagens do que escreve, e esse mistério é o mistério da sacralidade dos números”.

Blavatsky adorava a escola neo-platônica de pensamento – gostava dela quase tanto quanto gostava de achar que sabia como era a interpretação tibetana dos Vedas e de criticar as críticas que haviam feito a ela.

Bem, sigamos.

 

Público-alvo

 

Porquê?!

Aparentemente, Blavatsky nunca pretendeu ensinar ocultismo às massas. Ao invés, decidiu “revelar os grandes mistérios do passado”, mas de forma que ninguém exceto aqueles profundamente imersos em um círculo social de mídia ocultista (composta por jornais, citações, livros e palestras) compreendesse. Muitas vezes ela cita conceitos arcaicos e obras antigas tendo ideia de que o leitor já as teria lido – e reforçando a opinião e interpretação dela sobre essas obras, o que é um grande problema. Problema, porque confunde-se a interpretação de Blavatsky sobre as obras e clássicos com o que eles de fato dizem. Não é uma ou duas vezes que ela cita “descobertas científicas” que “comprovam” suas interpretações do mundo – descobertas hoje que sabemos que ficaram na história por um motivo, e que esse motivo é que estão erradas – experimentos simples comprovam que não ocorrem como foi proposto à época, coisa que é bastante comum e positivo na ciência.

Claro, isso não é exclusividade de Blavatsky. Crowley faz um pouco disso (ainda que não muito, pois tinha aspirações de grandeza, de ser imortalizado por obras de caráter universal, independente da secularidade). Outro que faz um pouco disso é Allan Kardec, mas não em suas obras principais, como o Livro dos Médiuns ou o Livro dos Espíritos, e sim na Revista Espírita, que editava à época. Simplificando, ela era o equivalente dos 1800’ ao moderno escritor de textão em grupos de ocultismo do facebook.

Só que as obras dela são feitas dos comentários.

 

Eu ia colocar algo mais suave, mas isso bateu TÃO bem…

A Doutrina Secreta

“Escusado é dizer que essa obra não é a Doutrina Secreta em sua totalidade; contém apenas um numero selecionado de fragmentos dos seus princípios fundamentais, dando-se especial atenção a certos fatos com os quais os diversos escritores se têm preocupado, desfigurando-os, porém, ao ponto de retirar-lhes toda verossimilhança.”

Esse trecho encontra-se nos últimos parágrafos da introdução à primeira edição do primeiro volume d’A Doutrina Secreta. Quando li pela primeira vez, achei que Blavatsky houvesse tido um raro momento de lucidez e humildade: Que houvesse reconhecido ser impossível a ela, mera mortal e muito longe da iluminação, escrever de forma verídica sobre uma “doutrina de todas as religiões”, sobre a “origem de todos os mistérios de todas as religiões e doutrinas”. Relendo, contudo, me decepciono ao ver que ela se põe como aquela que traz a verdade sobre essa assim falada “doutrina”.

É difícil criticar Blavatsky sem ser assombrado pelas palavras de “resignação” (passivo-agressivas) da mesma sobre os seus “críticos”. Isso, e o quanto ela desfaz de suas críticas, separando-os entre enganados, idiotas, perversos… isso é, todo tipo de gente “baixa” e que só a critica por “não ver sua grandeza”.

É revoltante ler esse tipo de livro por causa disso. Esse tipo de narcisismo é muito claro e constante nas obras de Blavatsky, sempre oculto por debaixo de um véu de intelectualismo e erudição. Na essência mais pura das coisas, Blavatsky é isso: Narcisista. E talvez um pouco megalomaníaca. Mas estou aqui para falar de sua obra.

 

 

Bem, a obra em si é, antes de mais nada, um veículo pelo qual a autora demonstra e reforça o seu narcisismo e sua crença (de aparência muito fraca) de ser possuidora de uma verdade única que a coloca como antecessora e conhecedora de tudo que há para se dizer sobre religião, magia, teologia e ciência.

É triste e irritante ter que limpar o próprio campo mental a cada cinco páginas, fazendo um esforço tremendo para não ser impressa na consciência uma série de táticas (aparentemente usadas de forma inconsciente) de grandificação e idolatria à figura da própria Blavatsky, muitas vezes às custas de criticar os críticos da mesma – seja se fazendo de vítima, seja afirmando que todos os “respeitáveis mestres” do passado diziam o que ela diz, seja desfazendo de quem a critica.

Do resumo da obra, eu diria que isso é o que fica ao leitor. Além do conteúdo esotérico ser palpável apenas após passar por um “mar” de conteúdos inconscientes de narcisismo e outras formas de operação mental desregulada, o mesmo é, para se dizer o mínimo, pobre. Resume-se em dizer que existe uma fonte primordial de onde todas as coisas vêm e daí dizer que essa fonte emite de si raios ou faíscas divinas – as quais aos poucos se materializam e individualizam, até o ponto em que geram a matéria.

 

Satã, como está meu cabelo? Porra belinha, já falei que tenho que ir trabalhar!

 

Então, demonifica a matéria, dizendo que é o mais distante dessa fonte o possível e que estar distante dessa fonte é coisa horrenda e moralmente inaceitável (a autora parece não compreender que “moral” advém de “moris”, e significa “tradição”, isso é, o conjunto de valores de uma sociedade segundo suas tradições e costumes, e não um valor universal e perfeito). Daí em diante, explica que o ser humano é composto de um algo anterior à matéria (uma espécie de espírito/mente), mas que esse algo se une à matéria por motivos tais ou quais – união que lhe gera karma, que então necessita de novas encarnações para ser desfeito. Depois de desfazer todo o próprio karma, o ser humano perfeito (ou iluminado) se dissolve novamente na fonte primordial e deixa de existir.

É isso.

Ela justifica esse tipo de ideologia com uma série de ideias difusas: Termos em sânscrito, filosofia budista, daoísmo, confuncionismo, doutrinas esotéricas tibetanas, etc., etc. Mas, na fonte da fonte, é só o pensamento comum e geral no meio esotérico do final do século XIX.

Claro, o que atrai as pessoas a A Doutrina Secreta é outra coisa – ou o culto à personalidade de Blavatsky, tão facilmente desenvolvido por meio de suas constantes pseudo-erudições e intelectualidades, ou o grande cabedal de conspirações e informações de um mundo fantástico e mágico que estaria presente no passado. Basicamente, por cima dessa ideia inicial, Blavatsky desenvolve a noção de seres perfeitos (os Grandes Mestres) que teriam alcançado os mais altos níveis de existência sem, contudo, escolherem se dissolverem no todo. Aliás, escolhendo inclusive permanecer na matéria.

Esses seres seriam detentores de grandes livros que têm as chaves para o “verdadeiro conhecimento” – que são derivações filosóficas da filosofia gnóstica mencionada acima – e que de tempos em tempos achariam pessoas que seriam seus porta-vozes no mundo e revelariam partes do seu conhecimento. Daí a autora explica que todos os mitos presentes em todos os livros religiosos do mundo, além de toda a filosofia professada por aqueles que ela considera grandes filósofos (como Platão) são momentos em que esses seres ou apareceram por conta própria, ou instruíram mensageiros para que aparecessem por eles e contassem coisas. Mais especificamente, eventos como as guerras mágicas que aparecem nos Vedas (textos sagrados hindus) seriam realidade de um passado distante, que teria sido passado adiante em um texto rebuscado e de forma oculta.

Bem, enfim.

 

 

Ela cria também uma série de outras ideias que têm a ver com evolução. Primeiro, critica Darwin e a ideia da Seleção Natural. Acredita ser impossível o ser humano “descender de símios”, pois considera todas as outras formas de vida no planeta como “seres inferiores”, dos quais o ser humano jamais poderia descender (vê o que eu digo do narcisismo? Se bem que isso é mais antropocentrismo mesmo… típico da época). Depois, usa uma coleção meio costurada de retalhos históricos, mitos e ciência para dizer que os seres humanos são, basicamente, produto de uma série de encarnações de almas “simples”, mas “sábias” que aos poucos foram se “degradando” até chegar ao estado atual – que, pela ideia dela, seria terrivelmente baixo e material demais, o que é outra ideia muito típica tanto da época quanto dos círculos New Age modernos – o que não é surpreendente, pois derivam em grande parte dela.

Bem, o resto não vale a pena ficar falando e falando.

Como citei no post sobre a Grande Fraternidade Branca, a descrição que Blavatsky dá sobre os seres nela presentes, assim como o que ela faz e diz, é totalmente alheia à prática. Claro, muitos podem virar e dizer que aqueles que têm contato com uma GFB vinda de espíritos são errados, porque espíritos elevados não existem, mas é meio difícil dizer isso quando vemos progresso espiritual E moral em pessoas que entram em contato com eles.

 

Peraí Emanuel, eu sei que você é obsessor, mas tenho que provar que TODOS são também!

 

Conclusões e Términos

Como é ler Blavatsky?

O que podemos falar de sua obra?

Ler Blavatsky é como ler um grande textão de um hermetista de facebook com pouca prática e raízes cristãs ainda muito vivas – ainda que ele professe piamente discordar e abominar o cristianismo, especialmente o cristianismo cristão/católico.

É um texto onde a pessoa mais reclama das outras e das críticas que recebe do que instrui, e que, onde há instrução, há mais citações que explicações.

É um texto confuso, construído para ser confuso.

É um texto baseado em propagação de julgamentos de valor e em estabelecer o próprio valor como superior aos dos demais (e especialmente aos valores do leitor).

É ainda um texto baseado em propagandear a grandeza da autora e de suas visões de mundo à custa da clareza quanto ao que elas são – que, infelizmente, não se encontra em lugar algum, nem mesmo n´O Livro Perdido de Dyzan, que tem passagens esotéricas pouco profundas, às quais se seguem explicações truncadas.

É uma obra que, não surpreendentemente, lançou em frente uma era de pseudo-hermetismo chamada “New Age”, onde a quantidade de “gurus” que só querem comer garotinhas é muito maior do que a de pessoas que sequer praticam outra forma de yoga que não a Hatha-Yoga, e onde, infelizmente, tem muita gente que acha que entende as coisas mas nem sequer sabe que os chakras são uma mentirinha, uma analogia para um sistema de práticas esotéricas que cria efeitos nos corpos sutis.

 

Já lí todo tipo de livro sagrado de toda religião!

 

É uma pena que exista como existe. Acho válido e precioso pelos efeitos bons que gerou, principalmente para as pessoas que despertou para o esoterismo (das quais poucas foram em busca de experiências espirituais de fato, mas as poucas que foram aliviam meu coração). Mas acho triste pelas diversas pessoas que empoderou para criarem coisas sem noção, como se dizerem magos ou iniciados nunca tendo saído do sofá de casa ou, muito pior, que acham que entendem yoga e misticismo hindu (e misticismo oriental no geral) depois de ler a interpretação dela.

 

Enfim, estou triste com algumas coisas e estou feliz com outras. Estou com a mente clara, apenas porque fiz com que a clareza voltasse por meio de truques mentais. De outra maneira, estaria confuso e perdido, provavelmente achando que há um conteúdo esotérico indecifrável naquelas palavras e que eu só não sou “bom o suficiente” para compreendê-lo.

Isso é ler Blavatsky. Tristemente, isso é ler Blavatsky.

Bem meus caros, é isso!

Boa tarde e até mais!

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