Vou buscar fama entre deuses esquecidos…

As pessoas buscam fama na internet, porque, no fundo, não acreditam.

Não acreditam que seus crochês são bem costurados, que suas sobrancelhas foram bem desenhadas, que leram os livros certos, que o que fazem da vida é importante. Precisam confirmar que estão certos.

Aos berros, querem convencer que nazismo é de esquerda, que a Terra é plana, que migrantes a pé são um Walking Dead da vida real, que vencedores de Reality Shows são pessoas legais, que, se eles não podem abortar, ninguém mais pode, que todos devem se sentir culpados por gostar de mais de uma pessoa que de outras, que o sapato de solado vermelho é sempre do mesmo número mas serve em todo pé.

Precisam impor justiça, porque seu deus é impotente.

São pessoas que se sentem só, mesmo jurando ver espíritos em todo lugar.

Escrevo isso e me dou conta de que o faço sob pseudônimo. Será que eu escrevo sob pseudônimo porque não me importo com reconhecimento ou porque não quero que me achem louco na rua, no trabalho, no WhatsApp da família…? Eu acredito no que escrevo e vou defendê-lo, ou escrevo algo em que não acredito e ao qual não quero ser associado?

Não faz sentido?

Pensem na quantidade de vezes que alguém escreve em sites de ocultismo sobre como fazer rituais de morte, sobre como não devemos ter medo de entidades inferiores, sobre como é fácil mudar a vida dos outros, sobre como não dói matar a própria alma em homenagem a deuses do dinheiro. E, principalmente, escrevem sobre como algum deus ensinou algo que eles decidiram que não importava mais.

  • O muçulmano radical mata porque esqueceu seu deus da mesma forma que o nazista mata porque não acredita que seja de uma raça superior.
  • O racista mata negros, porque não se acreditam melhores. Se fossem melhores, o que teriam de temer?
  • Evangélicos querem impor a lei de “seu deus”, porque não conseguem convencer outros a ter “sua” fé. Não há argumentos para provar que estejam certos. Resta a imposição.

Sempre me pergunto se era assim no judaísmo antigo. Com certeza, havia a noção de que o corpo de D’us era o povo. Então, a cabeça, a razão, a lei de D’us dizia o que fazer, e o corpo fazia. Agora, o judaísmo não tem intenção de converter o maior número de pessoas — muito menos à força — e não busca expandir-se sobre as demais doutrinas religiosas.

O judeu acredita mais em D’us do que outros povos acreditam nos seus deuses?

O judeu médio acredita mais na Torah do que o mago de Facebook que jura aos quatro ventos ter conseguido benfeitorias de servidores através de sexo com um baralho mágico? (Baralho, com b)

Eu não sei. Até acho que há algo bom em professar a própria fé.

No fundo, eu acredito em algumas coisas. Uma delas é a literatura.

Por mais que alguém me diga que não gosta de ler, que é preciso aceitar “qualquer leitura” que as pessoas possam fazer, que tentem me convencer de que ler Crepúsculo ou Harry Potter pode ser mais interessante do que ler A Vigésima Quinta Hora, de Gheorghiu, ou Montanha Mágica, de Thomas Mann, que acreditem que gosto é definitivo no julgamento do que é um bom livro, eu sei que quanto mais eles lerem, mais se aproximarão dos clássicos. Os mesmos clássicos dos quais eu gosto. Acredito, porque eu confio que leitura é assim, que o bom texto vence o texto pobre, que as boas ideias ficam e os clichés são esquecidos.

Eu confio na literatura.

Mas eu não sei se confio na magia.

Gostaria de acreditar que manipular Tav para materialização de boas ideias faria as pessoas materializarem suas boas ideias. Gostaria de acreditar que fazer chover ajudaria pequenas hortas familiares e diminuiria a fome. Gostaria de acreditar que eu posso impedir imbecis de usar armas de fogo só desenhando um nome de D’us na minha agenda. Gostaria de acreditar que minha caligrafia cura meus amigos, protege minha família e ressuscita aquela criança que levou uma bala perdida no meio da testa.

Mas vivemos tempos de retóricas inflamadas contra caminhantes mortos de fome. Escrevo a palavra vida numa estrela de seis pontas, dentro de um octógono numerado de 1 a 666 riscado bem em cima de Tiferet… E não comovo ninguém, nem a mim mesmo.

Para onde foi a magia das ruas?

Na praça, digo que a Lua está bonita, e meu filho de dois anos gira e chama enlouquecido e feliz pela Luna?, Luna?, por achar que uma personagem de desenho animado poderia de algum modo estar ali nos visitando.

No podcast do meu fone de ouvido, uma história bem contada em plot-points de 2 minutos revela coronelismo e desinteresse no interior do Brasil em uma época quando tudo deveria ter sido mais simples, mas nós é que estávamos cegos.

Sociais-liberais que deveriam ser de centro-esquerda mas agem como alt-rights, acusam nacionais-socialistas de extrema-direita de serem de extrema-esquerda, enquanto a população discute tamanho da economia do estado abstraída das definições de totalitarismo e autoritarismo. A política se torna um Vespeiro.

Ao toque do shofar, o rabino promete que o ano novo seria bom. Eu quase acredito. Com crença.

Eu traço um rabisco e peço que o nanquim viralize. A mancha suja meu papel, que deixa de ser meu papel e passa a ser o papel de todo mundo. Eu tento acreditar que é fácil assim. Com crença, as coisas se ajeitam, sem eu mover um músculo.

Num discurso engasgado, um candidato à presidência pede ao povo que proteja suas filhas. E aquele barbudo rechonchudo fica bonito. É charme, é truque de Luz.

Debaixo de um semáforo, um menino careca desmaterializa laranjas dentro de sua camiseta para fazer aparecer um sorriso e duas moedas na janela da dondoca do carro ao lado. Isso é mais magia do que toda minha cabala já conseguiu.

Como eu posso ser relevante?

Shbaa.

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