Resistência Mágica

É inevitável falar disso. Estamos em “tempos interessantes”, conforme diz o ditado/maldição; e é gritante que foi consolidado no Brasil um movimento sócio-político dedicado à perseguição de grupos vulneráveis. Em maior ou menor grau, diversas linhas magísticas serão implicadas por sua ascensão e precisamos discutir o que cada um, individualmente, pode fazer diante desse período escuro.

“Un rêve peut mourir mais on n’enterre jamais l’avenir!”

Não, não estamos falando de que rituais que você pode fazer na esperança que o candidato-símbolo desse movimento sofra uma derrocada. No campo microcósmico/pessoal, sempre é bom manter práticas de proteção e bênçãos em alta; mas vamos lembrar que a ação magística atua nos Planos Sutis e deve vir acompanhada da ação no Físico. Nosso foco será refletir sobre o que está acontecendo e pensar onde nós, como magistas, podemos nos responsabilizar diante dessas ações necessárias.

Com a falta de consequências diante dos discursos conservadores e repletos de ódio de políticos, criou-se um espaço fértil de onde surgiu realmente um grupo voltado à prática da perseguição aos grupos que julgam estar “destruindo a sociedade” – a esquerda e as minorias sociais. Entre os campos magísticos é fácil apontar que as religiões africanas serão as principais atingidas, embora já possamos notar ataques voltados à wicca (principalmente no Rio de Janeiro). Existem pessoas ditas “moderadas” que são “contra o ódio”, mas que encontram diversas razões para apoiar os principais símbolos desse movimento – e ironicamente muitas delas são magistas.

Destes, temos quem aponte o período atual como uma manifestação de energias em Oitavas Baixas, especialmente ligadas ao arcano “A Torre” do tarot; um pensamento de “nós contra eles” que aprisiona as pessoas em divisões rígidas – porém, acabam planificando o debate com “há intolerância dos dois lados” se justificando com “a esquerda vê o eleitor oposto como maligno“. Há aí uma grande falta de empatia, onde um dos dois lados está sendo desproporcionalmente agressivo (estamos tento um número alarmante de apoiadores dele praticando crimes contra seus perseguidos) e acuando o Outro pelo medo, gerando essa reação onde um apoiador moderado será compreendido como um potencial agressor ou alguém que não se importa com a segurança do próximo, pensando de forma puramente egoísta.

Eu já enxergo uma questão de Consciência, onde as Realidades Pessoal e Consensual das pessoas é extremamente limitada e não atinge ao Outro. Há uma percepção tão baixa que a pessoa simplesmente não consegue compreender que a mulher, o negro e/ou o LGBT estão correndo mais riscos que ela, ou ainda isto estaria tão fora de suas Realidades Pessoais e Consensuais que apesar de demonstrarem indignação e choque diante da violência ouvem sobre ela da mesma forma que escutariam um conto-de-fadas. Existem ainda a questão de serem Mentes que nunca lidaram com um processo de Libertação e estão voltadas a uma noção externa de “serem boas”; imaginar que estariam colaborando (mesmo que de forma indireta) com a violência seria a destruição de seus mundos pessoais.

Dragon Age: quando magos se rebelam

Tendo este panorama em mente, o que nós magistas podemos fazer? Minha primeira recomendação é: fortaleçam suas próprias identidades. Sim, é um momento onde discrição é uma questão de segurança e bom-senso; porém nossa identidade é algo que também dá forças e que ninguém pode tirar de nós se não dermos essa permissão. Procurem comunidades e espaços onde possam se manifestar livremente e se sentir confortáveis.

Depois disso, tenha em mente: o que você pode fazer, individualmente, por aqueles que estão em uma situação vulnerável? Pode começar pelo apoio psicológico – temos pessoas que estão literalmente surtando de medo e que se valerão muito de alguém que possa estender a mão e fazê-las ver que existe sim quem se importe. Em casos de perseguição onde não é consumada uma agressão física mas ocorre de formas sutis, se posicione à favor da vítima e não dê espaço para que ela se perpetue. Criar voz contrária é muito importante justamente por mostrar aos oprimidos que não estão abandonados e ao opressor de que a atitude não será aceita. Àqueles interessados em ativismo, recomendo escutar a edição 37 do Vortex Caoscast que contou com convidados presentes no meio magístico porém com experiência com militância.

Por fim, recomendo que lembre-se que somos magistas e temos poder sobre as Realidades. Se não há um caminho, ordene que um seja criado e faça sua Vontade valer; se não existem possibilidades, molde os fios do Destino e as faça surgir; se não existem meios físicos de resistir e se defender, use aqueles imateriais que sempre estarão conosco. (Eu disse que não falaria sobre rituais para derrubar político, mas nunca que não incentivaria ninguém a fazer uso deles…). Quem estiver interessado em uma perspectiva magística sobre resistência leia o livro “Bruxaria Apocalíptica” de Peter Grey, que expõe de forma poética uma filosofia esotérica para a atuação mágicka em uma revolta social (este livro é editado no Brasil pela editora Penumbra).

“A Bruxaria é o recurso dos despossuídos, dos impotentes, dos famintos e dos abusados. Ela dá coração e língua a pedras e árvores. Ela veste a pele áspera dos animais. Ela se volta contra uma civilização que sabe o preço de tudo, mas não sabe o valor de nada.”

E hoje, ao invés da típica despedida em nórdico antigo, deixo outra frase:

“C’est pour demain!”

-Ravn

 

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