O Holobionte e a Practognose

Holobionte: ser vivo (teórico) formado pela soma de organismos (micro e macro) que estão em simbiose. Nós, nossas bactérias e nossos vermes.

A discussão sobre o conceito não é tanto se a teoria está correta, mas, sim, se ela é necessária. Não vale a pena simplesmente aceitarmos que consciência e decisão não são tão individuais assim?

Practognose: conhecimento prático e corporal que precisa ser acessado sem a consciência/cognição, porque é interrompido por processos cognitivos conscientes. Quem dança ou pratica artes marciais entende bem o conceito.

O termo foi cunhado por Merleau-Ponty, mas não costuma ser muito utilizado fora de estudos específicos. É mais fácil encontrar o termo “apractognose”: incapacidade de por em prática habilidades motoras, como vestir as roupas. Diferente de falta de coordenação motora ou falta de cognição, a apractognose aparece na aplicação da ação nessas habilidades do dia-a-dia, que deveríamos ser capazes de fazer sem problemas, mas que, por algum motivo, quem sofre de apractognose não é capaz de completar.

Dois desafios para a ideia de consciência… e de individualidade

Conhecemos aquelas pessoas que juram saber a verdade do mundo por “sentirem” a beleza, a alegria. Pessoas que encontram a verdade porque essa ou aquela situação lhes faz sentir bem. Ou, ao contrário, sabemos daquelas pessoas que creem que, porque choraram por determinada situação, aquela situação foi mais real, mais importante que as outras.

Outras pessoas não são capazes de perdoar quem lhes fez mal “por toda a dor que causou”, “pelas horas que choro pela traição”. Há algo de definitivo na impressão deixada pelas emoções. Elas nossa identidade como indivíduos. Ou é assim que acreditamos.

Emoções como soma de ações de diversos organismos desafia a ideia de emoção correta e de emoção verdadeira. Ou mesmo que a percepção emocional seja mais real ou mais verdadeira do que as outras percepções.

Do mesmo modo, nossa percepção de realidade é desafiada pela ideia de que nosso corpo pode saber de coisas que nossa mente consciente ignora. “Ignora”, talvez, não seja a palavra, uma vez que passar para o nível consciente pode atrapalhar todo o processo.

A identidade e a individualidade são só dois simulacros úteis, como foram a órbita redondinha dos elétrons de Rutherford, a mecânica clássica, ou mesmo o sistema de Ptolomeu. Por mais que achemos erradas as suposições sobre o movimento de corpos celestes, as pessoas conseguiam calcular e prever a posição dos planetas em modelos bem primitivos. Nossa ideia de consciência, controle e identidade do que somos, pensamos e sentimos deve estar ainda em seu engatinhar científico. Em breve, veremos que não somos isso tudo que pensamos ser.

Na Cabala a identidade é basicamente uma construção mental que vive na interação entre o mental, o emocional e os símbolos operáveis pela mente. Claro que “mente” já é um conceito moderno. A distinção seria simbolicamente entre “olhos” e “coração”: percepção dos sentidos externos e dos sentidos internos.

A identidade enquanto autoimagem existe mais ou menos como a “egrégora” existe no equilíbrio de forças de união (Chesed) e separação (Geburah). A cabala colocou historicamente este equilíbrio em Tiferet, criando uma visão de “ego” construído de forças externas. Mas o mesmo processo existe em relação a Yesod enquanto equilíbrio de Hod e Netzach. Pensamentos racionais que fazem distinções claras (isso e não aquilo) e emoções sensíveis que criam estados difusos (isso e aquilo e aquele outro ao mesmo tempo agora) se unem para criar as imagens mentais, símbolos, signos reconhecíveis por nós. Nossa “mente”, na falta de palavra melhor, operaria, de acordo com a cabala, sobre essas imagens mentais.

Mas a Cabala é só mais uma desses simulacros (gosto da palavra simulacro, aliás, no sentido de simulação de uma coisa que nunca existiu).

Acesso ritual

O judaísmo indica fazer o ritual durante a Lua Crescente, pouco antes de ela estar cheia. Sugiro na noite do dia 22 para o 23 deste mês. Eu, particularmente, faria logo após o fim do Shabat do dia 22. Ou seja, após o pôr-do-sol. Mas qualquer dia com a Lua Crescente é propício.

Recitam-se:

  • Tehilim/Salmo 148
  • Shir HaShirim/Cântico dos Cânticos 2
  • Tehilim/Salmo 121
  • Tehilim/Salmo 150
  • Tehilim/Salmo 67

Coloquei abaixo traduções simples dos textos. É sempre melhor recitar em hebraico. Os passos especificamente seguindo o judaísmo são:

1 O ritual é feito sob céu aberto, em direção ao leste.

2 Recitam-se os seis primeiros versos do Tehilim/Salmo 148:

Aleluia! Louvem o Senhor desde os céus, louvem-no nas alturas!
Louvem-no todos os seus anjos, louvem-no todos os seus exércitos celestiais.
Louvem-no sol e lua, louvem-no todas as estrelas cintilantes.
Louvem-no os mais altos céus e as águas acima do firmamento.
Louvem todos eles o nome do Senhor, pois ordenou, e eles foram criados.
Ele os estabeleceu em seus lugares para todo o sempre; deu-lhes um decreto que jamais mudará.

3 Completa-se o Tehilim/Salmo com a bênção pela renovação dos meses:

Ele deu a eles (ao Sol, à Lua e às estrelas) leis e Tempo, para que não alterassem seu trabalho. Abençoado seja aquele que renova os meses.

4 Um dos poucos gestos rituais do judaísmo, deve-se levantar os calcanhares três vezes em sinal de “elevação”. Depois repetir três vezes:

Abençoado é teu criador, abençoado Ele que te deu forma. Assim como nós podemos saltar mas nunca te alcançar, que meus inimigos nunca me tocarão para fazer mal.

5 Um dos significados “ocultos” do ciclo lunar é o sinal de persistência do reino de Davi sobre os judeus. Repete-se, então:

Davi, Rei de Israel vive e resiste.

6 Se o ritual estiver sendo feito em grupo, agora é hora de dizer aos amigos presentes que eles são importantes para nós. Cumprimentem-se. Desejem-se alegria e felicidade. No judaísmo, a frase que resume isso é:

Shalom Aleichem. (A paz sobre vós.)

7 Terminando com desejos de bons sinais e boa sorte a todos nós! Ou, em hebraico:

Siman tov u-mazal tov Siman tov u-mazal tov Siman tov u-mazal tov yeheh lanu!

8 O Shir HaShirim/Cântico dos Cânticos 2 fala sobre a posição de D’us como presença constante. Também reflete a imagem poética do judaísmo em que a relação dos judeus com D’us é a de um casamento:

Esta é a voz do meu amado; ei-lo aí, que já vem saltando sobre os montes, pulando sobre os outeiros. O meu amado é semelhante ao gamo, ou ao filho do veado; eis que está detrás da nossa parede, olhando pelas janelas, espreitando pelas grades.

9 O Tehilim/Salmo 121 traz a imagem de proteção contra os elementos:

Levantarei os meus olhos para os montes, de onde vem o meu socorro.
O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra.
Não deixará vacilar o teu pé; aquele que te guarda não descansa.
Eis que não pestanejará, nem dormirá o guarda de Israel.
O Senhor é quem te guarda; o Senhor é a tua sombra à tua direita.
O sol não te molestará de dia nem a lua de noite.
O Senhor te guardará de todo o mal; guardará a tua alma.
O Senhor guardará a tua entrada e a tua saída, desde agora e para sempre.

10 Repetem-se as palavras de Davi nos versos do Tehilim/Salmo 150:

Louvai ao SENHOR. Louvai a Deus no seu santuário; louvai-o no firmamento do seu poder.
Louvai-o pelos seus atos poderosos; louvai-o conforme a excelência da sua grandeza.
Louvai-o com o som de trombeta; louvai-o com o saltério e a harpa.
Louvai-o com o tamborim e a dança, louvai-o com instrumentos de cordas e com órgãos.
Louvai-o com os címbalos sonoros; louvai-o com címbalos altissonantes.
Tudo quanto tem fôlego louve ao Senhor. Louvai ao Senhor.

11 Em seguida, lembra-se a santificação da Lua conforme o Talmud:

Como ensinado pelo Rabbi Yishmael, “mesmo que Israel não obtivesse nenhum outro privilégio além de saudar seu Pai nos Céus uma vez ao mês, seria suficiente”.

12 Tehilim/Salmo 67 lembra os milagres permitidos aos judeus:

Que Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe, e faça resplandecer o seu rosto sobre nós,
para que sejam conhecidos na terra os teus caminhos, a tua salvação entre todas as nações.
Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te todos os povos.
Exultem e cantem de alegria as nações, pois governas os povos com justiça e guias as nações na terra.
Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te todos os povos.
Que a terra dê a sua colheita, e Deus, o nosso Deus, nos abençoe!
Que Deus nos abençoe, e o temam todos os confins da terra.

13 Conclui-se com a prece Aleinu, ou, resumidamente, com o trecho:

Enquanto as nações do mundo se curvam para a vaidade e a trivialidade, nós dobramos o joelho e nos curvamos apenas em homenagem ao Rei dos Reis.

14 Se dez ou mais pessoas se reunirem para esse ritual, é uma boa hora, no judaísmo, recitar o Kadish dos Enlutados.

15 Dancem e divirtam-se.

Esta talvez seja a parte mais importante. A instrução judaica, na verdade, é “Dança e festeje como se estivesse em um casamento.”, sendo o casamento um ponto alto da vida judaica. Mas, se vocês já viram um casamento judaico, acho que vocês têm ideia da quantidade de alegria que se deve colocar nesse ritual.

Shbaa.

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2 Comentários

  1. Muito bom o texto! As orações judaicas tem uma força muito admirável.

    Sobre a sabedoria do corpo que não está no consciente, eu percebi algo parecido em mim ontem: fui doar sangue pela primeira vez e não tinha nenhum receio ou medo; foi só ao entrar no lugar e passar os meus documentos e, subitamente, minhas mãos estavam tremendo levemente. Achei até curioso, já que não estava sentindo medo. O corpo parecia estar refletindo algo mais antigo e ‘subterrâneo’, mas que afeta o todo tanto quanto algo “consciente”.

    Abraços

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