O Despertar ao Amanhecer

O equinócio de primavera marca o despertar da terra e o início da semeadura. Dentro de uma ritualística sazonal, observar o início dessa estação também significa o momento em que a energia telúrica tomará seu espectro diurno e conduzirá tudo à uma postura ativa. Discutiremos as bases dos rituais sazonais e dos mistérios da movimentação natural com base nas Libações de Primavera.

Mesmo ocorrendo em um contexto completamente diferente dos costumes agrários dos povos antigos, paganismo contemporâneo ainda coloca uma importância muito grande em rituais sazonais. O modelo mais conhecido, a “Roda do Ano” centrada nos quatro marcos principais (solstícios e equinócios) e quatro intermediários, foi construída na década de 1950 junto dos ritos wiccans mas se tornou influente o suficiente para que outras linhas neo-pagãs o usassem como base (embora movimentos reconstrucionistas irão preferir calendários com forte embasamento histórico ou mesmo desenvolvidos do zero). A ideia de celebrar as estações e ritos de colheita em uma sociedade tão afastada da Terra pode soar estranha para muitos, porém contém em si muitos Mistérios poderosos e significativos.

O primeiro ponto que temos ao adotar uma Roda do Ano é uma descentralização em nós mesmos (microcosmo) e um foco na movimentação externa (macro). Você passa a se atentar com os fenômenos naturais e suas energias, e a perceber a si mesmo como um pequeno fator em uma grande corrente que está influenciando a tudo e todos o tempo todo. É aqui que está inclusive uma das Chaves que revela por que é tão importante que o calendário e as celebrações sigam as estações locais ao invés de serem considerados marcos fixos determinados pela sazonalidade européia; o paganismo é sempre referente à terra em que ocorre, e nossa sincronia deve ser em relação aos acontecimentos daquele momento – caso contrário estaremos seguindo uma ritualística puramente eXotérica. Uma reconexão com a Terra, a percepção do ambiente como um organismo vivo, só ocorrerá se estivermos de acordo com o “aqui e agora”; isto acaba gerando ritos muito bonitos ao redor do mundo, como pagãos das regiões Centro-Oeste e Nordeste do Brasil que realizam libações (à Þórr, no caso daqueles de tradição germânica) logo após a primeira chuva que quebra a estação seca. Precisamos lembrar que somos uma pequena parte da Natureza e que frequentemente Ela tenta nos lembrar disto – quando ocorre uma enchente, crise hídrica, condições climáticas que sobem o preço dos alimentos – e os ritos sazonais

Como fatores energéticos, temos aqui um trabalho com energia telúrica e o movimento entre dualidades – que gosto de chamar de “aspecto diurno” e “noturno”. As estações definem momentos do ano mais “claros” (dias mais longos) e mais “escuros” (noites mais longas), mais “úmidos” (dias chuvosos) ou mais “secos” (ausência de chuvas), de acordo com a região; e isto também define a qualidade energética local. Podemos criar paralelos entre os nossos ciclos e vivências ao puxarmos essas energias para o nível pessoal, e assim tornar os ritos da Roda do Ano uma ferramenta de auto-desenvolvimento. A energia telúrica também é muito potente e pode atuar de forma poderosa dentro de práticas de manifestação, porém é necessário se atentar ao fato dela seguir o mesmo ritmo das estações; embora renda resultados grandes, eles virão gradualmente e será necessário que o magista obedeça a períodos de “semear” (lançar o Intento aos primeiros passos) e “colher” (obtê-lo manifestado).

Neste momento, estamos nos aproximando do equinócio de primavera – um momento de despertar. Os dias se tornarão gradualmente mais longos, a temperatura mais quente, e a terra mais fértil; as chuvas também tendem a aumentar. Recomendo que ao procurarem material para uma libação se atentem aos produtos que estão com preço reduzido devido a sazonalidade em mercados municipais e feiras, poderão se surpreender e aprender algo interessante. É um momento de olhar para o futuro e decidirmos o que este ciclo renderá a nós; muitos gostam de fazer a famosa “limpeza de primavera” e executar banimentos, embora eu considere estes mais adequados ao rito intermediário no fim do inverno. Dentro das minhas práticas, nomeio o ritual do equinócio como “Várblót” (“Libação de Primavera“).

“Iðunn”, por Anna Novikova

Quanto a mitologias da data, como sempre centrarei na germânica. É possível associar a data com Þórr, o áss defensor de Miðgarðr, que passa o inverno em jornada em Jötunheimr combatendo os þursar – entidades que ao se manifestarem geram o clima ruim (tempestades de gelo no Norte, porém podemos pensar em secura aqui no Brasil); a primavera marca seu retorno, quando o Hlóriði assumirá uma posição mais ligada a regulamentação dos céus e fertilidade e usará o Mjöllnir para trazer a chuva que fará as sementes crescerem. Gosto de fazer ritos com Iðunn, uma elfa que mora em Ásgarðr e é responsável por cuidar de uma macieira cujos frutos são capazes de rejuvenescer até os próprios deuses; seu sequestro fez com que os æsir enfraquecessem física e mentalmente, se tornando muito frágeis para empunhar armas e vendo suas memórias definharem. Apenas após um estratagema que derrotou o þurs sequestrador que os deuses puderam recuperar suas formas poderosas, comendo novamente as maçãs douradas; uso a iconografia de Iðunn para realizar ritos de remanifestação. Comentarei apenas levemente sobre Eostr, a “deusa do amanhecer” que hoje empresta seu nome a maior parte das celebrações primaveris (e cujo um retrato da cultura-pop abre o post); supõe-se que se trata de uma deusa germânica que passaria por mudanças de face (e nome) de acordo com as estações, porém não restaram resquícios sobre ela além do nome.

Que plantemos agora tudo aquilo que será gestado pela Terra. Que sejam cuidados pelo calor da Sól que retorna e fortalecidos pela chuva fertilizadora de Þórr. E que cada um de nós possa adentrar os pomares de Iðunn e receba de suas mãos as maçãs da remanifestação!

Sjáumst bráðlega!

-Ravn

 

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