O Orvalho da Yggdrasill, o Dragão e o Destino

Existe um mito sobre as Nornir (a tríade do Destino no panteão nórdico) onde além (ou “ao invés”) do papel de fiandeiras seria de sua ocupação regar as raízes da Yggdrasill. Embora já tenhamos analisado a Wyrd em textos anteriores, discutiremos os símbolos usados por esse mito para explicar este conceito que muitas vezes pode soar confuso. Recomendo (re)ler o texto anterior, para se familiarizar não apenas com a noção nórdica de Destino como também com os termos que serão usados.

Imagem destacada: Nataša Ilinčić. Sim, a mesma do artigo anterior; porque não achei nenhuma outra que me agradasse tanto quanto…

Dentro deste mito, a tarefa das Nornir envolve usar não apenas a água da Fonte de Urðr (a nascente onde se prostram) como também sua lama para reparar os danos que o dragão-serpente Níðhöggr causa ao roer as raízes da Yggdrasill. Enquanto esta manutenção é realizada, a Árvore absorve a água e ela percorre seu tronco, chegando às folhas como orvalho; que então pinga novamente na Fonte, retornando de onde veio.

Hagalaz (elder fuþark) à esquerda, e hagall (younger fuþark) à direita

Falando primeiramente do papel do Níðhöggr, podemos enxerga-lo como um representante do ørlög; aquilo que nos afeta diretamente, nos restringe, porém não está sob nosso controle. Embora costumemos a enxergar uma ordem estabelecida, sempre haverão fatores externos que podem exercer influência entrópica. Em sistemas rúnicos (incluindo oraculares), esta visão recai sobre a runa H (hagalaz no elder fuþark, hagall no younger); seus poemas se referem ao efeito destrutivo do granizo sobre uma plantação, sendo que não há nada que podemos fazer mediante um evento climático. Diferente dos mitos muitas vezes pegos como base no LHP, o Níðhöggr não é um dragão que é derrotado por um herói; após sua passagem pelas raízes, resta apenas reparar o estrago. Ainda assim, sua ligação com o movimento, entropia e o potencial liberado faz com que ainda seja um simbolo draconiano valioso também para este sistema.

Assim, as Nornir acabam fazendo um papel de um princípio mantedor da ordem e que garante que tudo continue progredindo, a Wyrd. Diante do ørlög, cabe a nós tomarmos as atitudes para confrontá-lo e moldar nosso Destino; assim, nossos atos são como a lama que repara as partes roídas das raízes da Yggdrasill e a regam. Depositadas com zelo pelas Nornir, nós sentiremos sua repercussão no futuro – quando o orvalho cair das folhas da Árvore. O princípio de que tudo aquilo que é corroído será reparado através das atitudes diante do tempo é o que mantém a ordem e a forma do próprio Universo.

Para os nórdicos, o tempo seguia uma noção cíclica; tudo o que fazemos e que acontece conosco está em cadeia, em uma relação de reações e remanifestações. Não havia a ideia de uma linearidade, e mais ainda – de uma repartição em momentos distintos. É interessante notar que o ataque do dragão às raízes, as Nornir as regando e as gotas de orvalho caindo de volta na Fonte de Urðr estavam tudo acontecendo ao mesmo tempo. Isto nos lembra que a forma que percebemos o tempo é apenas uma ilusão; não existe “passado” e nem “futuro”, apenas um instante presente em remanifestação contínua.

Vivemos em uma eterna encruzilhada onde estamos restritos pelo ørlög porém tecemos nossa Wyrd. Nessa eterna remanifestação, que possamos tomar as rédeas do nosso Destino e encararmos de frente tudo aquilo que se colocar à nossa frente!

Sjáumst bráðlega!

-Ravn

 

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5 Comentários

  1. Muito bom o texto! O anterior, sobre a Wyrd e Ørlög, também é muito bom e elucidativo sobre dois conceitos tão complicados.

    Então, me permitindo a comparação para entender melhor:
    Ørlög seria um princípio limitativo, determinador. Isso o aproximaria da ideia de Saturno e, por essa razão, de Binah na Árvore da Vida? Ou, talvez, Ørlög poderia ser lida mais com uma ligação com o Abismo?
    Se esse conceito for colocado em Binah, a Wyrd parece ter muito de Hochma: ela tem a ver com a multiplicidade de possibilidades. Isso faria sentido ou é uma comparação muito absurda?
    Fora isso, na medida em que as possibilidades tornam-se realidade (ou seja, das várias potências somente uma vem a ser real), Wyrd torna-se parte da Ørlög?

    Grande abraço,
    Alexandre

    1. Eu prefiro não fazer correlações com a Kabbalah Hermética porque cada conceito parte de visões de mundo bem diferentes, e assim facilmente podem induzir a erros. O ørlög vem antes, então no entendimento nórdico você primeiro é restrito e o que sobrar são as possibilidades que existem pra você; por isso que fica meio estranho quando tentamos encaixar na Árvore da Vida, onde você primeiro tem infinitas possibilidades que depois passarão por uma restrição.
      Mas quanto a segunda dúvida, sim – pela lógica de tempo cíclico, as escolhas que você faz e suas consequências se tornarão parte do seu ørlög e irão criar as condições no qual você determinará uma Wyrd futura. A analogia com um tear ilustra isso bem – você escolhe um fio e ele se torna parte da tapeçaria, se entremeando e influenciando aqueles que você puxar depois

      1. Perfeito! Obrigado pela explicação. De fato, fica ainda mais interessante observar essas noções quando elas se manifestam como uma cosmovisão diferenciada em relação à Kabbalah, que costuma ter certa disseminação no meio ocultista.

        1. Embora haja a tendência a usar a Kabbalah Hermética como lentes pra analisar qualquer sistema, muitas vezes temos mais a aprender com as diferenças do que com as semelhanças. A partir dessas distinções conseguimos enxergar claramente a abrangência de cada paradigma e entendermos profundamente qual é aquele que dialoga melhor conosco 🙂

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