OS Motivos.

Faz um bom tempo que não escrevo por aqui, e é justamente esse o assunto que escolhi para voltar. Durante minha ausência eu não fiquei parado e não deixei minhas práticas de lado, pelo menos as que funcionam, e sinceramente eu não queria voltar a escrever, não mesmo! Se não fossem alguns bons amigos eu não escreveria mais. Porém eles foram bem sinceros ao dizer que mesmo com todos os problemas, todo o “mimimi” e todos os “achismos” e “esquisoterices”, escrever sobre ocultismo vale a pena, e “alguém tem de fazer o serviço sujo”.
Então, por que eu decidi não escrever durante um tempo?
Antes de responder, vale à pena avisar que eu não estou aqui para te agradar, nem escrever o que você quer ler, se seu objetivo é encontrar alguém que sempre concorde com você ou que só escreve aquilo que você acha certo, vá para outro lugar!
Você foi avisado. Leia por sua conta e risco!

1. Responder sempre a mesma coisa enche o saco.
Internet é internet, e isso não vai mudar. Agora eu entendo o motivo de algumas Ordens sérias terem tantos processos de avaliação e testes tão duros para entrada de seus membros. Grande parte das pessoas está acostumada àquela informação pronta e mastigada, sem ter de pensar, ler e ler e ler e ler de novo. Eu sinceramente sou a pessoa que mais entende falta de tempo e excesso de trabalho, eu vivo isso, mas não posso entender a falta de vontade de aprender e ler. Grupos do Facebook e outras mídias são muito chatas, ninguém lê o que outro escreve, ou a resposta dada, todos só querem dizer! Parecem crianças gritando: EI OLHA AQUI! ME ESCUTA!

2. Tretas! Tretas! “Achismos!”
Talvez isso seja fruto de tempos modernos, onde não temos inimigos naturais, não temos que caçar, ou uma guerra. Sinceramente não sei. Mas muita gente precisa de um inimigo, precisa de uma treta e os grupos de discussão mágicka são perfeitos para isso. Boa parte das discussões saudáveis são deturpadas por “trolls” (e isso ofende esses seres mitológicos tão interessantes.) que sem fundamento algum entram na discussão e expressam sua opinião fecal baseada em seus “achismos” e cultura pop! As discussões saudáveis são tomadas por sentimentos de raiva e egocentrismo. O cidadão diz que é super mago-feiticeiro-projetor-mestre, mas não consegue controlar o seu ego e muito menos as marés de suas emoções, é a personificação da lua fora de curso, com sua maré de sentimentos toda desregulada. Vai praticar um pouco de meditação, e tentar escalar até a Torre e depois volta aqui e escreve igual gente.

3. Cultura pop e ciência.
Grant Morrisson e outros fizeram um grande serviço tentando popularizar a magia, deixar tudo mais fácil de ler e entender, mas acabaram deixando um legado de bosta! Eu sei que a culpa não é dele ou do Alan Moore, ou do Peter Carroll, é antes de quem lê. Provavelmente as obras deles pertençam a um futuro distante, onde as pessoas saibam ler e interpretar e que possuam algum fundamento mágicko. Com a popularização da Magia do Caos entrou na moda simplificar tudo e tentar enquadrar tudo dentro da cultura pop, nenhum deus escapou, nem a Cabala. Ritual de invocação do Darth Vader como Saturno. Assunção da forma deus do He-Man. Usar o Flash como Mercúrio, e outras situações mais divertidas, para não dizer trágicas. É bem verdade que isso pode ser feito, mas não é verdade que Darth Vader é Saturno, que He-Man é o Sol e que Flash é Mercúrio, também não é verdade que essas formas são tão poderosas quanto às mitológicas. Para começo de conversa Saturno tem no mínimo 5000 anos a mais de existência do que o Darth Vader, mas Saturno mete medo, vai te cortar em pedacinhos, então para preservar seu ego inchado você prefere Darth Vader, para invocar Saturno você tem de estudar, muito, se não ele vai “cagar na sua cabeça”. Eu até aconselho alguns iniciantes começarem seu treinamento em Mágica Planetária pela cultura pop, como forma de treinamento, mas se você quer mesmo tremer na base e usar uma real Máscara de Poder, então vai ter de estudar e ir atrás dos clássicos.
Agora é a hora que os defensores da psicologia e do inconsciente coletivo vão vir com suas teorias pseudocientíficas e tentar contradizer o que eu estou escrevendo. Magia não é ciência, magia é Arte! E para ser um bom artista você tem de saber sobre os clássicos e no mínimo experimentar.

4. Sigilos e Servidores.
Outro efeito colateral da popularização da Magia do Caos. Entre em qualquer grupo de Magia no Facebook, não precisa ser de Magia do Caos, esses só têm mais, e veja a quantidade de postagens sobre sigilos e servidores. Veja a quantidade de gente pedindo um sigilo, pedindo um servidor ou solicitando a masturbação alheia para “carregar” seu sigilo. A tecnologia de sigilos é fácil e prática, mas não é, nem de longe, a única coisa dentro da Magia do Caos, na verdade ela é apenas uma ferramenta, uma chave de fenda e essa ferramenta é pessoal, não tem de ficar emprestando. Existem alguns sigilos que podem e outros que devem ser carregados de maneira coletiva, mas na maioria dos casos isso é feito dentro de uma egrégora fechada, onde os membros sabem o que estão fazendo, se der algum problema não fica difícil contornar. E sinceramente, você realmente acha que consegue lidar com a energia desfocada, desconexa e desperdiçada de um monte de gente? Se sim, vá em frente e seja feliz.
Quanto aos servidores a situação piora. Quantos servidores você já carregou para os outros? Quantos servidores você já criou para os outros? Más notícias! Isso é perigoso. Sério. Normalmente eu sou aquele que diz para fazer e foda-se, mas parto do pré suposto que a pessoa sabe o que fazer ou sabe se defender. Servidores funcionam muito bem, até para iniciantes, mas é interessante que ele observe os seguintes princípios: simplicidade, pessoalidade e constância. E eu vou ser legal e explicar rapidinho. Simplicidade: quanto mais simples a tarefa melhor, olhe eu falei simples e não genérico! Presta atenção! Tarefas muito complexas exigem servidores mais complexos e com níveis de consciência mais elaborados. Pessoalidade: isso é relativamente simples, seu servidor é seu servidor. Quanto mais pessoal ele for, melhor ele vai trabalhar para você, ele é problema seu. Quando você fica enfiando o subconsciente dos outros no seu servidor o controle sobre o desenvolvimento dele sai da sua mão. É simples, ele está “ganhando consciência” de outras fontes. Eu mesmo já caí nessa armadilha e fui tentar ser bonzinho e criar servidor para a galera. O resultado foi que eu tive de matar ele. O servidor saiu completamente do controle, de todo mundo. Normalmente isso acontece de maneira natural, você vai desenvolver o servidor de maneira natural, ele vai evoluindo e ficando mais elaborado, e em algum momento ele vai ficar bem grande e talvez possa tornar-se algo coletivo. Talvez. Constância: Quanto mais um servidor trabalha, melhor ele fica, mais especializado. Não é muito inteligente criar um servidor para ser usado uma única vez, melhor fazer o sigilo. Eles são ótimas ferramentas para um uso constante, algo que você sempre precise. Se você usar ele uma única vez, e depois? Dá para mudar a função dele, mas é um remendo, pode ser que não fique lá grande coisa. Resumindo se você for fazer um servidor faça um que vai estar sempre trabalhando.
E vamos parar de ser soberbos! O servidor que você acabou de criar não vai ser um novo deus ou a super solução para os problemas do mundo.

5. Mestres demais, discípulos demais, opiniões fecais.
Agora vou ser redundante, mas acredito que haja necessidade. Não é de hoje que acontece no ocultismo o mesmo que acontece nas artes marciais. Alguém se declara mestre e sai coletando discípulos e até perceber que o mestre é uma fraude muito tempo de dinheiro vão pelo ralo. Isso na melhor das hipóteses, pois no meio do caminho quase sempre acontecem abusos, lesões e mais abusos. A internet só fertilizou o terreno. Existem mestres demais, vivos ou mortos e discípulos demais, e quando falo discípulos deveria estar falando fanboy. Qualquer texto embasado mostrando um ponto de vista divergente gera uma onda de ódio e repudia. Ameaças e as famigeradas “guerras mágicas” (lembra do inimigo?). A situação piora quando o mestre tem um canal no YouTube ou meia dúzia de coisa escrita. Na maioria das vezes é só um ponto de vista diferente ou uma abordagem diversa, mas estamos no Aeon das opiniões. Tem até caçadores de bruxas em grupos de Thelema, com direito a acusações de heresia. Há um amor tão grande à doutrina que chegamos ao nível do fanatismo, o mesmo que criticamos em igrejas.
Isso sem falar nas fogueiras, onde um lança o outro, união e coesão são inexistentes quando só um acha que a verdade dorme do seu lado.

6. Política e Magia.
O Brasil descobriu a bipolaridade comunista versus capitalistas, um pouco atrasado, mas descobriu e isso chegou aos terrenos mágicos. Defender uma opinião política no meio de um contexto mágico é no mínimo imbecil. Eu sei da participação política de muitos magos do passado e que boa parte viveu de parasita de governos absolutistas, mas isso não quer dizer que eles estavam certos, também sei que tem muita gente boa ganhando dinheiro de político ou de certas igrejas, mas isso também não está certo. A magia deve prezar pelo entendimento da natureza secreta do universo e da liberdade individual. Posso estar equivocado, mas o conhecimento, o entendimento e a sabedoria possuem uma ligação direta com a liberdade individual, qualquer dogma, lei ou ideologia restritiva deve ser posta de lado, sacrificada e a carcaça jogada aos demônios. Ao invés de defender instituições, amaldiçoe! Tem muita gente boa que caiu na armadilha do dualismo azul versus vermelho e acaba por contaminar toda sua obra com isso. Basta ver as obras do Robson Pinheiro. Lembre-se que nada deve custar sua liberdade.

7. Soluções rápidas.
Boa parte da prática mágica é uma construção, uma obra para uma vida. Provavelmente a causa principal da maioria dos tópicos que apontei seja o fato de querermos resolver um problema para ontem e pronto. Se tivéssemos somente um problema e magicamente resolvêssemos nunca mais procuraríamos magia. Magia tornou-se uma forma rápida de burlar regras e resolver problemas, por isso tantas pessoas pedindo sigilos, servidores ou pagando fortunas por trabalhos de Goécia e Quimbanda. E a Grande Obra fica para a próxima vida, ou para nenhuma. Deixa-me revelar algo interessante: os problemas vãos sempre acontecer, nunca vai parar, e você vai buscar uma solução mágica instantânea o resto da vida.
Uma da melhores partes da prática mágica são as mudanças causadas no seu microcosmo, perder isso em detrimento de pequenas conquistas materiais é jogar tempo e dinheiro fora. Como diria Nelson: “sai mais barato pagar um assassino do que fazer macumba pra matar!” Não posso concordar mais.

Agora que desabafei, espero ter aberto a cabeça de pelo menos uma pessoa. Agora posso voltar ta escrever aqui e tocar os projetos que eu tinha deixado dormindo.

XI.

Akin

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