Os Três Níveis de Realidade

O mago manipula a realidade através da magia; porém, do que se trata a “realidade” que cairá sobre suas mãos? Estabeleceremos aqui uma estrutura em três níveis, facilitando a compreensão do trabalho magístico e da noção de “paradigma”.

Muitas vezes vemos pessoas se apropriando de axiomas como “Tudo é a Mente” ou “Nada é Verdadeiro, Tudo é Permitido” para afirmar não há nada “real”, apenas projeções mentais; mas sempre surge a pergunta, se esse é o caso por que não flutuamos ao desacreditarmos na gravidade (temos os terraplanistas por aí para mostrar que tem quem não acredite…)?

Torna-se mais fácil não apenas compreender tais axiomas como também a prática da magia quando dividimos a “Realidade” em camadas. Da maior para a menor, nós temos:

  • Realidade Objetiva: é o ponto que muitos magistas questionam a existência, e que precisa de mais esclarecimentos. Se trata de tudo aquilo que está concreto, e que nos afeta o tempo todo independente da nossa crença ou o que façamos sobre o assunto. Todos os objetos sólidos que estamos em contato a todo momento, fenômenos naturais como o vento e a chuva e leis da física como a gravidade fazem parte da Realidade Objetiva.
  • Realidade Consensual: aquilo que “nós combinamos” que é “real”, mas que não necessariamente é validado pela Objetiva; sua confirmação vem do coletivo. É aqui onde nascem os dogmas, como “faça X e receberá uma punição/recompensa divina”; e também os “paradigmas”, os pressupostos no qual sistemas se embasam e interpretam a Realidade Objetiva. A noção do paganismo germânico de que “um juramento deve sempre ser inviolável” e o animismo em torno do espírito de elementos naturais, por exemplo, fazem parte da Realidade Consensual e são paradigmáticas – ou seja, se tornam inválidas quando saímos da visão de mundo germânica. Sendo altamente moldável, a Realidade Consensual é frequentemente manipulada por aspectos culturais, interesses e fenômenos de massa. Várias vezes também a Realidade Consensual assume uma significação simbólica de um fator da Objetiva, como por exemplo a “lei da causa&efeito” sendo transformada em noção de kharma ou wyrd.
  • Realidade Pessoal: aquilo que nós tomamos como “real” para nós mesmos, porém não é validado nem pelo coletivo (consensual) nem pelo objetivo. Um bom exemplo seria os sigilos que montamos na magia do caos a partir de letras; o resultado é um grafismo aleatório, mas que nós atribuiremos um valor pessoal.
“Taiji Tu”: um modelo de realidade do ocultismo chinês

Os “modelos de realidade”, como a Kabbalah judaica e o “Diagrama do Grande Princípio Primordial” (“Taiji Tu”) do taoísmo, são paradigmas compostos na Realidade Consensual para a compreensão de fatores Objetivos. Diversas nomenclaturas que usamos para eles definirão muito da nossa relação com o externo, conforme aprofundado em “Um Nome para o Universo”. Um bom exemplo que podemos dar sobre a interação desses três níveis é o seguinte: se você está lendo este texto sentado, provavelmente está apoiado em uma cadeira. Porém, seu apoio não é uma “cadeira” – é um objeto, com um formato específico, existente na Realidade Objetiva; o contexto em que ele está inserido fez com que a Realidade Consensual assuma que se trata de uma “cadeira” e que possui um uso específico. Em sua Realidade Pessoal, este objeto pode ser uma “mesa” ou qualquer outra coisa.

O exemplo nos mostra também que todo o potencial da Realidade Objetiva nunca está totalmente contido em seus níveis menores. A “cadeira” pode se tornar um “aríete”, caso seu contexto mude drasticamente; porém usualmente, tendemos aos significados mais comuns dados pelo paradigma vigente. Aquilo que compõe a Realidade Consensual sempre é altamente cognitivo. Apesar de nossa Consciência ser capaz de selecionar e moldar sua percepção através dos paradigmas, ela sempre estará limitada por eles devido às condições da nossa Mente.

Quando sua Realidade Pessoal não dialoga com a Realidade Objetiva… [Tira: Edegar Agostinho]
Também é importante notar que muito do que é colocado como “inconsciente coletivo” está na Realidade Consensual, influenciando e tendenciando a nossa visão sem que nós percebamos; muitas ordens e práticas que visam “romper com a realidade” estão atacando justamente este ponto, visando que cada um possa ativamente escolher a forma que enxergará seu entorno. Conforme vemos em “A Árvore das Mentiras“, muito do que reproduzimos inconscientemente como “verdade” é apenas uma Realidade Consensual e pode ser prejudicial a nós.

Isto nos lembra da importância de manter o diálogo entre os três níveis. Segundo o conceito de Jean Piaget, para um bebê tudo o que ele não pode ver naquele momento “não existe”; então quando seus pais estão longe de vista, eles teriam “deixado de existir” – sua Realidade Pessoal ainda possui pouca noção da Realidade Objetiva. Também existe uma piada circulando em grupos de ocultismo sobre alguém assumir a forma-deus de uma ave e então pular pela janela; não é porque algo está fortemente estabelecido a nós como Realidade Pessoal, que seja boa ideia extrapolar para as outras…

Expandam suas Mentes e quebrem a Realidade Consensual. Permitam-se ir além e encontrar os potenciais externos, e assim tomem para si o material para criar sua própria realidade

-Ravn

 

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