Quem tem medo do Abismo?

“Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha de volta para você”, diz o cliché de Nietzsche. Não apenas filósofos como muitos autores magistas se debruçaram sobre o assustador “Abismo” presente no Universo e no interior de nossas Mentes. Seria um local ilusivo, confuso e sombrio – porém também detentor de um imenso potencial oculto. Exploraremos algumas de suas concepções, com uma ênfase nos pontos de vista draconiano e hermético.

O que seria o “Abismo”, afinal? Em uma das definições mais recorrentes, é um ponto de separação entre o nosso Universo, ordenado e causal, e toda uma região caótica e acausal externa onde as Leis Herméticas seriam inválidas; para uma correspondência com as nossas Mentes, é aquilo que está entre o Subconsciente e o Inconsciente profundo. Dentro do hermetismo, está associado com a “Esfera sem número” de Daath (algo como “Conhecimento”) em sua Árvore da Vida – dentro do Macro ela separaria os Planos Inferiores do “Triângulo Superior” (composto por Binah, Chockmah e Kether) onde encontraríamos os princípios do Universo e a dissolução com o Todo. Seu nome viria de uma visão onde, no caminho para uma Manifestação, o “conhecimento” necessário para a realizar viria de um vislumbre obtido em um único instante onde as três Esferas do triângulo se uniriam; além disso, estando entre Tiphereth (compreendido pelo hermetismo como o “Eu Superior”) e Kether (o Uno divino), seria a responsável pela “inspiração divina”.

Para muitos autores hermetistas, além do Abismo de Daath estaria a “Árvore da Morte” onde dominariam as “Qlipphoth”, substratos de Oitavas Baixas e aspectos sombrios da psiqué que fariam oposição aos pontos elevados e iluminados das “Sephiroth”. É uma visão particularmente problemática, que renega os instintos e a Sombra para um ponto “fora do Universo” e pode gerar sérias repreensões; uma discussão detalhada no assunto foi feita em “A Árvore das Mentiras”. Quanto mais fugimos dos lados obscuros da Mente, mais pendemos a hipocrisia e nos distanciamos da plena Consciência.

A Via Draconiana trabalha com a noção de que além do nosso Universo causal está um Vazio Imanifestado, o não-lugar onde tudo aquilo que “não é”, “não foi” e “será” está; tudo aquilo que vai se manifestar deve sair do Vazio e passar para o “nosso lado” do Universo, enquanto as coisas esquecidas ou possibilidades fechadas fazem a via oposta – e o caminho entre um estado e outro é o Abismo. Com isso, podemos entender por quê esta região é colocada como repleta de ilusões e dispersões; fragmentos de coisas que ainda estão em vias de se manifestar, possibilidades que dependem de escolhas e restos daquilo que está em vias do esquecimento são muito confusas, somando-se com as imagens de baixa definição e compreensão que encontramos no Inconsciente. E devido a não-natureza do Vazio, quanto mais próximos estamos dele mais atingimos um absoluto paradoxo que nossas Mentes conscientes podem tentar negar ou racionalizar ao invés de apenas aceitar. Para a Kabbalah Hermética, ao mesmo tempo que Daath nos dá a “inspiração” também constitui um Véu que nos impede de ver os planos divinos, por isso gerando um estado de ilusão em que os habitantes dos planos inferiores se encontrariam.

Quando lidamos com essa energia, a nossa Sombra emerge e os traços de nossa personalidade e desejos que renegamos virão à tona. Tentações de abandonar a Consciência e se orientar de forma totalmente instintiva ou uma loucura oriunda das muitas imagens elusivas (entre inspirações em vias de manifestação e partes do nosso Universo em vias de esquecimento) podem invadir o magista, fazendo-o se desviar de um caminho evolutivo ou ter suas atitudes dominadas por Oitavas Baixas. Aleister Crowley personificou estes traços no “demônio da dispersão” nomeado Choronzon, enquanto a Via Draconiana os coloca como guardiões na forma de dragões. Enquanto o iniciado do LHP possui a disciplina para se expor a aspectos baixos sem se deixar levar (estando orientado pelo seu Ego em processo de deificação), o iniciado do RHP nesse momento irá abandonar o Ego e seu desapego de si mesmo o unirá ao Todo.

Dentro de qualquer via séria da magia, o adepto começa treinando diligência e aprendendo a desconstruir seu ser para se alinhar com Oitavas Altas justamente como uma preparação para o trabalho com o Abismo. Sua “travessia” e os confrontos que ele nos trás são essenciais não apenas na caminhada magística como também ao nosso amadurecimento, nos trazendo recursos para atuar com as energias voláteis para a Manifestação da nossa Vontade e também para superarmos nossos próprios demônios internos e ficarmos em paz com eles. Sigam com seus “Eu’s” os fortalecendo, abracem os paradoxos e, quando notarem o Abismo olhando de volta, o cumprimentem com um riso!

-Ravn

 

Confira aqui uma exploração do Vazio como um sistema prático baseado nos mitos nórdicos

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