Contar, contar e contar

Relatos do Omer

A contagem do Omer é um exercício de reflexão pessoal. Nas primeiras vezes que fazem a contagem, as pessoas acham que vão ganhar superpoderes. Não é totalmente mentira.

Eu vou contar um pouco sobre minha relação com a contagem.

Quando pequeno, todo mundo brinca de pensar como seria a vida com um superpoder. E se eu voasse? E se eu não morresse? E se tivesse superforça?

Mas e se tivesse supermemória?
E se eu pudesse sentir o que os outros sentem?
E se eu me importasse com a vida?
E se eu fosse feliz?

“Apenas contar.” Ouvi do rabino na sinagoga. “É a coisa mais simples que D’us já nos pediu. Contar todo dia.” Sem meditação, reflexão, vodu, macumba. Só contar.

Conta, Cálculo. Pedra.

Contar pode parecer fácil para nós. Fazemos isso há pelo menos 37.000 anos com ferramentas. Sozinhos, estima-se que possa ser já há 50.000 anos. Contar pode ser algo tão simples quanto fazer em um galho marcas correspondentes ao número de animais abatidos ou companheiros de jornada. É tomar conhecimento de algo, de sua existência individual, distinta e persistente.

Se olharmos crianças pequenas contando, elas imitam o ato de enunciar os números, mas não sabem individualizar o número em relação ao objeto contado. Dezesseis podem ser vinte-e-dois, e não enxergam a diferença. Nosso cérebro parece projetado para identificar intuitivamente diferenças entre quantidades como entre oito e quinze. Mas crianças pequenas são facilmente confundidas se vinte moedas estiverem guardadas juntinhas umas às outras e dez moedas estiveres distribuídas longe umas das outras. As dez moedas que ocupam mais espaço parecem ser uma quantidade maior.

Das atuais 7.000 linguagem no mundo, quase todas possuem sistemas numéricos para descrever quantidades com precisão. Apenas algumas dezenas (ou menos) possuem sistemas imprecisos. Os Pirahã, por exemplo, têm palavras apenas para um ou dois (hói) e poucos (hoí). Experimentos mostram que os Pirahã têm dificuldade de juntar conjuntos de, digamos, oito balões com outro gravetos. E têm dificuldade em lembrar de quantidades específicas, porque não têm as palavras precisas para falar sobre essas quantidades.

Quando D’us nos comandou que contássemos

Quando D’us nos comandou que contássemos os dias, comandou que prestássemos atenção nesses dias como unidades individuais, coisas que existiam por si. Um dia não é igual ao outro. Não é repetição pura e simples. Não devemos misturá-los, esquecê-los. Contar, em ordem progressiva, é dar um passo a frente todo dia.

É a ordem mais simples, ainda assim, cheia de sentidos.

Nada existe, segundo a cabala, se não existe em Malkuth.

Todo ano, durante a contagem, os estudantes de cabala se perguntam uns aos outros pessoalmente e em diversos fóruns online “o que é Chesed de Yesod?”, “o que significa Bondade na Bondade?”. Eu acompanho esses fóruns. Mas acho que esquecem a parte mais importante: viver aquele dia.

“Chesed shebe Yesod serve para conectar os caminhos ocultos entre as esferas, e isso, e aquilo”. Mas e agir com compaixão? E encontrar um espaço no dia para criar um ato simbólico de compaixão, de empatia? E contar esse ato como algo que existiu de verdade, em Malkuth, no mundo real. Tomá-lo individualmente pelo que é: um dia, um ato de compaixão.

Se eu não soubesse meditar

Se você não souber meditar, visualizar, exercitar os atributos supostamente superiores da cabala, conte os dias e os faça dias individuais, distintos. Faça com que cada dia seja diferente, dias que não se perderão na memória como se fossem um só dia.

“Esse foi um dia lá de Chesed ou Geburah”. Não. “Esse foi o dia em que finalmente saímos para jantar só nós dois”, “esse foi o dia em que me comprei aquele casaco novo”, “esse foi o dia em que ajudei um moço que não conseguia dar a partida na moto”, “esse foi o dia em que fiz serviço voluntário”, “esse foi o dia em que dei carona ao vizinho e descobri que estudamos no mesmo colégio, e nunca havíamos nos falado”, “esse foi o dia em que exercitei a tal descida de Innana”, “esse foi o dia em que li um livro, tomando café sozinho ali na praça e ninguém me incomodou”.

Esse foi o dia em que voltei a escrever meu diário, completei um conto para o blog, agendei uma reunião com colégios para vender ferramentas digitais de ensino de leitura, comecei a gravar um podcast.

— Shbaa.

P.S. Ah, sim. O superpoder? Eu ganhei um dia.

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