A Serpente, a Magia e o Descontrole

Na Via Draconiana, é muito usual escolher uma serpente como uma analogia para a magia. Esta serpente é como uma força intensa, com o qual é possível tentar negociar mas jamais domar; o caminho dela segue uma tendência, mas nunca é previsível. Quanto mais compreendemos essa serpente, mais selvagem e descontrolada ela se torna; o que pode fazer esta animal já perigoso por si só soar ainda mais ameaçador, nunca sabemos quando seu bote irá se voltar contra nós.

Porém, diferente de outras linhas, esta falta de controle sobre a magia é vista sob um viés positivo no Caminho da Mão Esquerda.

No hermetismo e outras vias cerimoniais, é passada uma visão onde um magista que atinja graus altos terá uma um grande controle sobre o macrocosmos e poderá facilmente alterá-lo com sua Vontade. Uma leitura superficial de linhas mais contemporâneas, como a magia do caos, dá a impressão que seus métodos pragmáticos o darão tais resultados rapidamente logo no princípio. A Via Draconiana oferece uma visão divergente: com certeza um magista conseguirá concretizar seu intento, porém a movimentação para que ele aconteça tangenciará diversos outros fatores que estão fora de controle; e neles é onde estaria o real aprendizado em realizar a operação.

Pegando emprestado o termo “efeito tangencial“, cunhado por Kenneth Grant em sua obra para se referir a este descontrole, o LHP nos ensina que quanto mais hábil é o magista maior este efeito será. Concordando em partes com o hermetismo, o magista experiente (ou “magus“) realmente possui uma capacidade maior de impor sua Vontade ao macro; porém sua intervenção passa a tangenciar um espaço tão grande quanto. Além disso, sua percepção está mais condicionada a perceber quantos fatores estão sendo movimentados pelo trabalho de sua Vontade.

Fica muito fácil entender o porquê do efeito tangencial quando enxergamos a Realidade como um tecido ou emaranhado de fios. Tal qual um instrumento musical, mover uma de suas cordas fará outras vibrarem em ressonância; e puxar um dos fios de uma trama faz outros virem junto. Conforme vimos em “Um Nome para o Universo“, certas visões do macro – como a do “Nada” ou da “Natureza” – nos tendenciam a enxerga-lo como algo onde estamos acessando potenciais infinitos e imprevisíveis, ou cujas leis com o qual nossas ações vibrarão são absolutas e nos vêm como consequências.

O "Tear de Wyrd": a Realidade representada como uma intricada trama
O “Tear de Wyrd”: a Realidade representada como uma intricada trama

Ao atingir patamares avançados de Consciência, um magus teria uma compreensão maior da própria composição da Realidade; percebendo o Tempo como um momento Presente e constante, ele sabe exatamente como seus fios estão se configurando. Isto não o torna absoluto sobre ela, apenas o faz com que ele consiga movimentar um número maior deles; daí que encontramos um efeito tangencial tão grande quanto. Embora sua Consciência esteja Ilimitada, sua manifestação não está – ele ainda está submetido a todos os efeitos do plano em que se encontra, e sua força de Vontade encontrará barreiras de tamanho proporcional. A resistência a manifestação também faz parte do efeito tangencial, quando nossa ressonância esbarra em um fio rijo que não deseja vibrar.

Antes de enxerga-lo como negativo, pensem em quantas descobertas científicas e ideias artísticas vieram do acaso e do descontrole. O pesquisador que tinha um objetivo definido e em um momento de distração fez uma descoberta que não estava ligada diretamente a pesquisa foi afetado por sua própria forma do efeito tangencial, assim como o artista que ao misturar errado duas cores encontrou uma nova forma de pintar. A ressonância de um Intento pode trazer a solução para uma questão que nem seria o seu foco, e por isso toda a reflexão em torno do feitiço mudar por completo. É óbvio que sim, o efeito tangencial pode trazer consequências ruins e dificuldades inesperadas; porém, a adversidade tende a ser uma excelente professora.

Quando estiverem em seu embate com a serpente negra, compreendem sua natureza selvagem e imprevisível; porém não sintam medo dela. Negociem sua direção, e voltem seu olhar para o caminho que ela irá percorrer e o que será arrastado com ela. Estejam abertos não apenas para a realização do Intento, como também de tudo aquilo que se encontra como “potencial” – tudo aquilo que for obtido é, mais do que uma concretização, um aprendizado. Permitam-se surpreender com a canção que a ressonância causada pelo fio que você vibrou está tocando!

plat-assin-Ravn

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