O príncipe que pensava ser um peru e o sábio que o curou sentando-se nu debaixo da mesa

A seguinte história é creditada ao Rabino Nachman de Bratzlov, ou Rav Nahman Breslover, bisneto de Baal Shem Tov. Utilizava o conceito de hitbodedut, uma espécie de “solidão intencional” na qual a pessoa poderia conversar com D’us em voz alta, como se conversa com um velho amigo. Também apresentou o conceito de “retificação geral” (ou seria “retificação genérica”?). Através dos Tehilim/Salmos 16, 32, 41, 42, 59, 77, 90, 105, 137 e 150, poderia-se remediar pecados graves como o de “derramar a semente”. Se você é um dos “derramadores de semente”, sugere-se ler esses Tehilim/Salmos uma vez por dia em voz alta e em ordem.

Mas vamos ao que importa. A história de hoje começa assim:

Era uma vez um príncipe que acreditava ser um peru.

A ave é chamada de Tarnegol Hodu, galo da Índia. Supõe-se que seja o mesmo animal que os ingleses acreditavam ser turco, chamando-o de “turkey cock” e hoje só “turkey”, e que os portugueses acreditavam ser peruano, chamando-o “galo-do-peru” e hoje só “peru”. Mas isso não tem importância.

Era uma vez um príncipe que acreditava ser um peru. Ele se escondia nu debaixo da mesa de jantar. E beliscava comida do chão.

Uma vez que todos os médicos do reino falharam em curar o príncipe, um sábio foi chamado.

O sábio, vendo a situação do príncipe, despiu as própria roupas e sentou-se debaixo da mesa completamente nu, como o príncipe. Ficou ali algumas horas, beliscando comida do chão. O rei e a rainha se horrorizam com a cena, claro. O sábio inútil enlouqueceu também!

O sábio vira-se para o príncipe e se apresenta como outro peru, e, após alguns dias, o príncipe o aceita como peru.

Uma vez aceito, o sábio começa a conversar com o príncipe. “Sabias que não é necessário estar nu para ser um peru?” O príncipe primeiro não aceita a ideia, mas, vendo o sábio vestir uma túnica e ainda se comportar como peru, resolve experimentar vestir uma túnica também.

O sábio continua. “Sabias que não é necessário comer debaixo da mesa para ser um peru?” E o príncipe aceita sentar-se à mesa.

O sábio continua sugerindo ao príncipe que ele pode usar talheres, conversar com o rei e a rainha, tratar das responsabilidades do palácio sem nunca deixar de ser um peru. Porque “ser um peru” é sua essência. Ninguém nunca poderá tirar isso dele.

O príncipe aceita as palavras do sábio. E passa a viver novamente como um príncipe. O rei e a rainha ficam satisfeitos com a cura de seu filho.

Eu sei que vivemos em outra era. Se a história fosse “príncipe que pensa ser uma mulher”, julgaríamos errado pedir que se vestisse como homem sendo que julgava a si mesmo mulher. E alguém me enviaria uma mensagem dizendo que o certo seria “princesa cujos pais pensavam ser um príncipe”. Damos hoje muito mais valor ao mundo interior de uma pessoa — à sua autopercepção, ao estar-bem consigo mesma — do que ao estar-bem com o mundo exterior.

Mas eu gosto dessa história por vários motivos, vou deixar três para pensarmos:

1 Contrair-se para se comunicar

A interpretação mais comum dessa história é a de que o sábio representa o comportamento esperado de um rabino que vai ensinar o povo sobre a Torah. O rabino deve “diminuir-se”, reduzir-se em imagem, posição social, vocabulário, conhecimento, até espiritualmente, para aproximar-se do povo ainda inculto. Daí, deve ajudar o povo a subir, passo a passo, em direção a D’us.

2 Aparência é suficiente

O segundo ponto interessante é que, no judaísmo, a aparência é suficiente. O sábio não está interessado em convencer o príncipe de que ele é um ser humano. A essência não é questionada nem para um lado nem para o outro. Não interessa se ele acredita ser um peru ou um homem. Interessa que ele se comporte como homem.

Parece falso. Parece enganação. Mas o rei e a rainha têm sua visão do príncipe. E o príncipe tem sua visão de si mesmo. O que interessa é que todos podem estar felizes apesar de suas visões conflitantes.

3 Ser especial não significa separar-se das pessoas (pode-se entender “especial” o príncipe ou o sábio rabino)

Uma espécie de corolário ao #2, o fato de o príncipe julgar-se diferente, não o obriga a distanciar-se das outras pessoas. Entenda. Supondo que o príncipe realmente pense ser um peru em sua essência, nada irá mudar isso. Não são suas roupas ou o modo de se sentar à mesa que o definem.

Ao mesmo tempo, o fato de o sábio julgar o príncipe diferente, não o obriga a distanciar-se do príncipe. Um dos dois lados precisava dar um passo em direção ao outro e descobrir qual é “a essência”. O príncipe não conseguia fazê-lo por si mesmo. O sábio era mais maleável, flexível.

E, quando o outro não consegue se mover em nossa direção, é nosso trabalho nos despirmos de nossos preconceitos e sentarmos a seu lado. Viver a vida do outro um pouco. Uma chance de aprender.

Afinal: como saber qual de nós está nu debaixo da mesa?

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