Cabala Judaica: Indicações 2016

Referências para o iniciante nos estudos da cabala

Judaísmo e cabala. Dois assuntos interligados. A cabala, mesmo para os judeus que não creem em D’us, molda a tradição e o pensamento judaico. E o judaísmo, mesmo para os que operam a cabala apenas como ferramenta mágica, é chave para decifrar os símbolos e a gramática da Criação.

Separei cinco livros sobre judaísmo e cinco livros sobre as raízes da cabala, para construção de um vocabulário operacional útil ao estudo autônomo, independente, questionador da magia por trás do que chamam de cabala judaica. Vou listar os livros neste post e, a cada semana, indico um pouco sobre como ler ou o que procurar em cada uma dessas obras.

Livros sobre Judaísmo

Assim como, para um falante do Português, a língua Espanhola é traiçoeira, apesar de muito similar, o mesmo ocorre para aquele que tem base cristã e se envereda pela liturgia judaica. O primeiro livro da lista é um panorama longo sobre o papel da palavra no judaísmo, mesmo no judaísmo “ateu”. O último livro é um estudo profundo sobre o papel da mulher e da Aliança com D’us no judaísmo. Os outros três são importantes para montar a relação do judeu com as Leis.

1 Os Judeus e as Palavras, de Amós Oz e Fania Oz-Salzberger

Pai e filha seguem a longa tradição do debate transgeracional no judaísmo, buscando entender a relação dos judeus com o texto mesmo antes da escrita da Torah propriamente dita. O texto escrito no judaísmo é importante simbolicamente por ser fixo. Mesmo o judeu iletrado aprendeu a decorar a palavra da Torah, repetindo-a para seus filhos e netos. Essa imutabilidade da palavra escrita contrasta com a tradição do diálogo sobre a interpretação da Lei. Se a palavra é fixa, sua interpretação é viva: carrega não só o significado original, mas seu significado histórico e o significado que precisa ter para a vida do judeu hoje.

2 Kabbalah e Êxodo, de Z’Ev Ben Shimon Halevi

Às vezes, o texto de Z’Ev Ben Shimon Halevi beira o virtuosismo interpretativo. O autor consegue tirar grande número de interpretações de pequenos trechos do livro de Shemot/Êxodo. Mesmo que o leitor não consiga pescar todas as referências, é ótimo exemplo do palimpsesto que é a Torah para o povo judaico.

3 Meguilat Esther, O Livro de Ester, Torah, Pentateuco, Bíblias em geral

A narrativa de Esther é um ótimo exemplo de uma lenda judaica construída no exílio da Babilônia e incorporada na forma de pensamento judaica. O leitor mais acostumado com lendas da região ou de religiões afins nota claramente o papel do Calendário na narrativa, incluindo a presença dos 3 dias de escuridão e das 4 fases da Lua. Concilia o comportamento ambíguo de D’us na figura do Rei Ahashverosh, que condena o povo judeu à morte em um decreto ao mesmo tempo em que assegura ao povo judeu, no decreto seguinte, o direito de lutar pela própria vida.

4 Shulkhan Arukh, “Mesa Posta”, compilação e comentários sobre a halachá.

A Mesa Posta — tradução literal do título — é uma compilação da Halachá que veio a substituir a repetição da Torah (Mishneh Torah) escrita por Maimônides no século XII. Escrita por Yossef Karo e publicada no século XVI, é aceita pela maior parte das congregações judaicas ortodoxas. Os comentários do rabino Moshe Isseries indicam onde as tradições sefaradi e ashkenazi diferem e são conhecidos como mappah, a “toalha de mesa”, e são hoje compreendidos como a mesma obra.

5 Why Aren’t Jewish Women Circumcised?, de Shaye Cohen

O livro do professor Shaye Cohen, PhD em História Antiga e rabino, usa a pergunta “Por que as mulheres judias não são circuncidadas?” para traçar a história da Aliança através dos séculos. Elabora sob diversas óticas o que era e o que é ser judeu em diversos tempos na História. E conclui encontrando identificando os aspectos principais do que é ser judeu e o que é a Aliança.


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Livros sobre Cabala

A cabala, nos livros indicados, é uma união do mistiscismo mágico e da aplicação da moral ao dia-a-dia. Os livros demandam certo esforço de leitura, porque são escritos em camadas para serem lidos em camadas. Apenas o primeiro é moderno. Moderno mesmo, do século XX. Os três seguintes são, na verdade, livros de estudos de grandes mestres da cabala, que deixaram anotações para serem publicadas. Em sua maioria, publicações póstumas. O último é o que considero o mais maravilhoso (em mais de um sentido da palavra) dos livros do Tanakh, o “Antigo Testamento”.

1 A Cabala e a Mística Judaica, de Gershom Scholem

Se existisse uma Escola de Frankfurt para estudos de mistiscismo judaico, essa escola teria sido liderada por Gershom Scholem. O princípio para os estudos dirigidos por Scholem era o de submeter a mística judaica à disciplina da Filologia e da História. Assim, o autor nos apresenta uma cabala viva, mutável e histórica, longe da imposição dogmática. A cabala judaica atual é apresentada como fruto de uma luta entre o monoteísmo e os mitos, luta a qual o monoteísmo nunca conseguiu vencer de forma plena. Na tentativa de evitar os conflitos doutrinários, o judaísmo escolheu apagar ou esconder o mistiscismo, na tentativa de evitar que o poder fosse imposto de cima para baixo. E, como ato final de conciliação, o judaísmo teria reduzido D’us a um conceito filosófico, impedindo que pudesse ser ator e permitindo que pudesse ser discutido abertamente.

2 Shaar haGilgulim, textos de estudo de Isaac Luria, Yitzchak Bar Chaim, Samuel Vital e Hayyim ben Joseph Vital

É na verdade um conjunto de textos de diversos autores que discorreram sobre a reencarnação do ponto de vista judaico. O conceito tanto significa o ciclo de vida e morte do corpo humano, como os pequenos ciclos dos nossos anos, meses e rotinas diárias. O judeu pode cumprir um gilgul — literalmente ciclo ou roda, traduzido como “encarnação” — mudando de profissão, se divorciando, acompanhando um filho crescer. A obra apresenta também a ideia de fim-dos-tempos, quando nenhuma reencarnação, nenhum giro da roda, seria mais necessária.

3 Shaarei Kedusha, de Hayyim Vital

Raramente traduzido, ainda tenho dúvidas sobre a clareza das traduções disponíveis em Inglês e Português. Todavia, o Shaarei Kedusha traz anotações de Hayyim Vital, aluno de Isaac Luria, sobre o método de meditação cabalística. Segundo a obra, os métodos foram experimentados pessoalmente por Vital. A forma da meditação para acessar a sabedoria dos textos sagrados é particularmente semelhante ao que conhecemos hoje como incorporações.

4 Shaar haKavvanot, de Isaac Luria (ou, claro, de um de seus estudantes em seu nome)

Kavvanah significa intenção: os pensamentos que deveríamos ter ao entoar cada prece, cada bênção, cada palavra. Nesse texto, Isaac Luria descreve não como se comportar fisicamente na prece, mas como se comportar mentalmente. Os pensamentos apropriados às ações da fé judaica. Esse livro é especialmente interessante, porque o judaísmo raramente separa ação e intenção. Normalmente, se a ação pode ser concluída, a intenção foi concluída. Ou, em outros casos, a intenção é até mesmo ignorada. O mundo físico é rei.

5 Kohelet / Eclesiastes, especialmente acompanhada dos comentários de Rashi.

Maravilhoso. No nome em hebraico, aquele-que-reúne, mas traduzido para aquele-que-professa. Dizem que são palavras do próprio Shlomo haMelech, o rei Salomão, se dirigindo a uma assembleia. Linguisticamente, o texto se coloca entre 450aEC e 330aEC. A poética empresta palavras do persa e do aramaico. O conceito central, hevel é vapor, sopro. Traduzido como “vaidade”, deve ser entendido como “a qualidade de ser vão”. Todo o trabalho do ser humano sobre a Terra é vão, é vapor, é efêmero como o sopro.

Shbaa.

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