Cabala Judaica #19: A Gramática da Criação

Tem gente que diz estudar magia, cabala especialmente, e não sabe colocar vírgulas em uma frase. Gente que se vangloria de praticar algum exercício mágico diariamente há 10 anos e não sabe que aquele “há” tem “h” e acento agudo.

cabala etz chayim cf. Isaac LuriaEsses dias, em conversa informal com os colegas deste blog sobre indicações de leitura, respondi que minha sugestão de livro para quem quisesse ser um mago cabalista deveria ser uma Gramática. Resolvi me justificar por escrito. Primeiro, porque achei interessante que minha indicação para um estudo judaico dito “de mão direita” tenha sido um livro didático, enquanto a indicação do meu colega “da mão esquerda” foi um livro de Literatura. Segundo, porque entendo que, embora todos nós entendamos que deva haver liberdade e intuição na prática espiritual, isso não significa que não deva também haver regras.

Gramática Funcional

Muitos tentaram ao longo da História associar as palavras, guemátria à geometria e à gramática. De forma semelhante, o contemporâneo Alan Moore os grimórios (grimoire) antigos são, na verdade, gramáticas (grammar) pessoais. A palavra gramática indica um conjunto de regras para construção e operação coerente dos símbolos dentro de um sistema — para nós, dentro do texto. Apresenta as maquinações da relação interna dos elementos do texto, deixando em geral de lado o significado vernacular das palavras. A gramática diz como símbolos se encaixam uns com os outros.

Por que isso seria importante, se hoje as correntes contemporâneas de magia sugerem que intuição e vontade são cocriadoras ad-lib da realidade? Por que estudar regras, se eu posso criar meu próprio sistema sempre que precisar?

A cabala insiste que o mundo externo e interno são correspondentes, mas isso não significa que as regras que percebemos internamente são as percebidas pelo mundo exterior. Impor minha visão é força bruta. Entender a visão do mundo sobre mim é inteligência.

Construções básicas como servidores mágickos são ideias vendidas como bastante intuitivas. Mas servidores possuem suas regras. Alimentador, caminho para fluxo da energia, espaço para dispersão, foco, limitadores e até um switch. A metáfora é a do circuito eletrônico, mas o circuito eletrônico também tem sua gramática.

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A questão na cabala é compreender os elementos do texto antes de tentar mudá-los de lugar. Vamos pelo pensamento analítico. Estamos tentando aprender as regras do texto, não impô-las.

Pense: O que é um adjetivo na língua portuguesa? Como o verbo flexiona? E para que serve a flexão do verbo?

O que é um adjetivo?

A norma rege que “Adjetivo é a palavra que expressa uma qualidade ou característica do ser”. Esqueça. Isso é sobre o significado. Estamos procurando o funcionamento. É como dizer que “Verbo indica movimento“. “Inteligência” é uma qualidade do ser. “Queda” é um movimento. Nada disso fala sobre a coerência interna.

A criança foi à sinagoga.
As crianças foram à sinagoga.

O verbo se modifica para acompanhar o número de criança/crianças. É isso que verbos fazem. Por outro lado, é o verbo que indica tempo. Não só quando algo ocorre, mas se é um tempo contínuo ou limitado.

A criança estava indo à sinagoga.

“Estava indo” indica que o “ir” está no passado, mas se estende de forma indeterminada.

A ideia de gramática também permite fazermos “engenharia reversa” e descobrir palavras no texto.

A criança xere foi à sinagoga.
As crianças xeres foram à sinagoga.

A criança foi juba à sinagoga.
As crianças foram juba à sinagoga.

No exemplo, xere é adjetivo e juba é advérbio. Como eu sei? Porque xereacompanha o plural em “crianças”. Adjetivos acompanham o plural do substantivo. O advérbio não acompanha nem verbo, nem substantivo. Poderíamos supor também pela posição de juba, próxima ao verbo. Mas, se a última frase fosse “As crianças foram jubas à sinagoga“, teríamos um adjetivo. Deslocado. Ainda assim, adjetivo.

Para aprender o funcionamento de uma palavra, um signo ou símbolo, precisamos observá-los em mais de um contexto. Precisamos observar como se modificam conforme o ambiente. Quais efeitos geram. Não basta ler o dicionário de signos, a tabela de Crowley para letras hebraicas, o dicionário de sonhos, o dicionário de sinais gráficos para demônios da sétima senda do cristão que oculta seu medo do inferno em imagens satânicas.

Cabala Funcional

Por isso, o judaísmo registra a cabala em narrativas.

Da mesma forma que eu posso distinguir o adjetivo do advérbio ao observar as diversas “encarnações” das palavras “xere” e “juba” (já está claro que eu inventei essas palavras, sim?), eu posso aprender a distinguir Tav de Nun e de Dalet observando histórias sobre o dono de uma pousada que se desculpa por não ser judeu suficiente para seu D’us; sobre dois rabinos que serpenteiam ao redor de um forno; ou sobre uma raposa, um sapo, um escorpião e um dito sábio.

O paradigma é tão importante quanto o sintagma. As possibilidades não escritas são tão importantes quanto aquilo que está escrito para criação de significado.

O símbolo de Saturno, por exemplo, é igualmente associado em tabelas herméticas à terceira sefirah e ao trigésimo segundo caminho. Mas em uma associação, Saturno é verbo. Na outra, advérbio. Em uma, Saturno domina o sintagma, define espaço e tempo, indica o aspecto do mundo construído. As outras partes do texto precisam usam esse Saturno de núcleo da frase. Na outra, Saturno modifica nossa percepção do movimento original, mas não o modifica em essência.

Entenda:
Mário correu.
Mário correu apressadamente.
Mário correu tarde demais.
Mário correu com fúria.

Nada altera a verdade principal: Mário correu. Poderia até brincar: Mário correu mentirosamente. Ainda assim, ele correu. A “mentira” do advérbio não nega a “corrida” do verbo. Estão em planos diferentes da linguagem.

Da mesma forma, os símbolos da cabala se organizam em planos diferentes, com regras específicas para cada um. Mas os judeus raramente registram tabelas normativas ou macetes. Não há decorebas de listas de exceções a serem memorizadas. Não há pegadinhas. As narrativas da cabala não são minemônicos para outras fórmulas ocultas que, quando decifrados, levarão ao verdadeiro conhecimento.

As narrativas são o conhecimento. São o material a ser estudado. Seu objetivo é apresentar as diversas energias em posições diferentes na frase e em frases diferentes. Só assim para sabermos o que cada uma significa — para aprendermos sua gramática.

Diagramas de gramáticas, como em todas as gramáticas.

Agora vá e escreva sua própria.

  • Indicação: Gramática de Usos do Português, de Maria Helena de Moura Neves

gramática cf. Isaac LuriaShbaa.

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