Cabala Judaica #9: As Cascas e A Fome

Dor, prazer e a retificação do mundo.

Aqui e agora.

Vivemos em uma caixa, de onde só sabemos o que há fora através dos sentidos. Ou essa é a descrição corrente nas últimas décadas ao se falar sobre cabala. Não é um solipsismo. A cabala admite a existência do mundo exterior. O que a cabala nega é a capacidade de conhecer o mundo exterior através dos sentidos. Seria necessário um “sexto sentido”, um sentido não ligado ao plano material, para conseguirmos saber o que realmente há lá fora.

Só a partir daí já é suficientemente difícil entrar em consenso sobre o que seriam as esferas. As cascas (qliphot, klipphoth, clifót) adquiriram nos dois últimos séculos conotações ainda mais divergentes da original.

Definição de qlipha é igual cu. Cada um tem o seu e todo mundo fica querendo se meter no dos outros…

Opa. Quero dizer… a definição usual de qlifa adquiriu um ar de perigo, como se o trabalho com a área devesse ser evitado, temido, amaldiçoado.

É difícil encontrar estudos competentes sobre as qlifot na cabala. Em geral, são descritas apenas como a aparência sem luz. Na prática, significam que são formas reconhecíveis de tudo que vemos no nosso dia a dia, mas sem propósito. Ou sem **O Propósito**. No caso da religião judaica, o propósito seria retificar o mundo. Os sábios cabalistas, no Shaar haGuilgulim, nos advertem de que:

se deixarmos que a semente da relação sexual toque o solo, ela imediatamente cai em Sitra Ahra.

22Isso, sem a linguagem poética, significa apenas que aquela porra perdeu sua única utilidade.

Existem lá ocultas, entre umas e outras citações a preces e ritualísticas, primitivas referências às qlifot. Por exemplo, durante a techunem, súplica da prece matinal, o suplicante deve elevar-se ao teto e cair de rosto no chão (se interpretado literalmente, claro). A techunem não tinha versos fixos até o século 1300EC. Seria uma suplica pessoal. Mas os cabalistas registraram que a função dos versos escolhidos para o techunem seria de fazer com que a alma pudesse descer às qlifot e resgatar outras almas lá presas.

No entanto, na cabala judaica, o Outro Lado, Sitra Ahra, se parece muito mais com o ZERO do que com o NEGATIVO. Na cabala judaica, a qlipha de chesed em contato com chesed resulta inevitavelmente em chesed. Em outras tradições modernas que tratam do Outro Lado, a qlipha de chesed em contato com a sefirah de chesed resulta em anulação ou mesmo na própria qlifa de chesed.

É importante notar que o nome qlifa/casca, está diretamente relacionado com a metáfora para o corpo humano qli/vaso. O aquário ou o “aguaceiro” – aquele mesmo quadrante representado pela parte humana dos quatro quadrantes do céu – é o recipiente. O pote onde a água é colocada. A ideia é que a água é a mesma, ela muda de forma conforme o recipiente em que é colocada.

É assim com os corpos humanos, é assim com as esferas. Cada sefirah tem sua própria aparência. Chesed pode se parecer com “Amor”, enquanto gevurah pode ser parecer com “Temor”. Mas o conteúdo de ambas as sefirot é o mesmo: a luz divina emanada de uma origem única.

O que chamamos de casca, qlifa no judaísmo, é a mera aparência do recipiente. Quando algo tem aparência de Amor, mas nenhuma de suas qualidades – e digo “qualidades” no sentido estrito de características, particularidades, peculiaridades, atributos – é apenas uma casca de Amor. O Amor de verdade, ligado às outras esferas pela luz interna, sustenta a árvore inteira de significados e funções. Sem conteúdo, essa casca de Amor é só uma mentira estagnada que impede o fluxo das outras esferas, pois se as outras energias fluíssem, a casca deixaria de ser oca.

Posso usar a alegoria-cliché da louça suja. Imagine que o saco de lixo da cozinha está cheio. Alguém precisa tirar tudo da lata e colocar um saco vazio novo. Mas ninguém tira. Ao terminar de comer, você não tira pode tirar o resto de comida do prato, porque o lixo está cheio. Como não pode lavar o prato deixa ele em cima da mesa. Quanto tempo para a pia estar cheia de pratos sujos? Tudo isso, porque parte do processo está travado. Tudo está interligado, então como parte não flui, tudo decai rapidamente.

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Mas o que é essa LUZ?

Pense na alimentação. Quando tudo está certo, comemos algo que tem gosto bom, dá sensação de saciedade e nutre nosso corpo. Não interessa se foi por “designinteligente” ou por “evolução”. O corpo humano foi feito para que essas três partes fossem contempladas durante a alimentação. Para ficar vivo, o corpo precisa de algo que lhe faça bem. Para não comer demais, precisa que o alimento dispare os sentidos de saciedade. E, para comer o suficiente, precisa sentir prazer em comer. Há quem diga que somos capazes mesmo de detectar no paladar os nutrientes presentes na comida e sentir “mais fome” por aqueles alimentos de que mais necessitamos.

Nas últimas décadas, muito se fez para explorar essa natureza do corpo. Flavorizantes artificiais, por exemplo, como já discutido em outro texto, enganam nossos sentidos, eliminando a informação presente no alimento e tornando o gosto uma mera casca. Nesse sentido, suplementos, bebidas zero, remédios para perder o apetite, comidas adoçadas artificialmente não funcionam para o corpo humano como o corpo espera que funcionem.

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O corpo tem uma ordem própria. O flavorizante é uma informação externa ao sistema. Ela entra no sistema no que vamos posteriormente chamar de conhecimento. Enquanto não o fizer, é apenas casca. Não está conectado a nada dentro do sistema. Mas é possível usar a casca no sistema. Fazemos isso o tempo todo.

Podemos absorver a informação em benefício do sistema, quando necessário. O uso de flavorizantes em dietas é o exemplo básico. Podemos enganar o corpo para que sinta prazer em comer coisas que normalmente não o agradariam. O que seria uma qlifa para o sistema natural do corpo, se torna sefirah. Se torna uma aparência imbuída de novo significado, cheia de nova luz, através da atribuição de um propósito àqueles cheiros e sabores. Não é a forma mais indicada pelo judaísmo, mas é possível.

Não é indicado, pois o judaísmo prefere que usemos nosso “sexto sentido”, nosso sentido externo à matéria para sentir se algo é bom ou não para nós. Não simplesmente nos entregaríamos ao prazer do gosto da comida, mas deveríamos saber, reconhecer o que nos faz bem. Não é uma questão de funcionar ou não, é uma questão de estar conectado com os outros elementos.

Na prática cabalística, significa dar finalidade, função, intenção, por em bom-uso elementos antes desconectados do TODO. Na simbologia judaica, isso é “iluminar uma qlifa“, “encher de luz uma casca”, fazer com que algo do “outro” lado volte para o lado de cá, o lado “abençoado”. Uma vez que se estipula que a alma humana tem sua origem na mesma fagulha que criou toda a Ordem, não há como uma qlifa dominar esta alma exceto pela inação. É apenas quando o humano se retira do mundo que a qlifa aparenta ser mais do que a sefirah.

No fim das contas, a casca de um sistema é esfera de outro.

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Shbaa.

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