Cabala Judaica #7: sobre Cabala e Vinhos II – o diário mágico

No outro post, comparei o trabalho de aprendizado da cabala com o treinamento de um enólogo. Repito:

Mas entender isso é como treinar para ser enólogo, esses cheiradores de vinhos. Cada vinho é diferente. Cada esfera é diferente. É quase impossível associar o gosto sorvido em um cálice ao excesso de iodo no solo onde cresceu o carvalho do barril usado para envelhecimento do vinho. Mas esse iodo influencia no gosto final. E o gosto pode ser detectado. Só que ele não vai ser descrito como iodo, mas como metálico, seco, alto.

Assim é com as esferas. É impossível sentir diretamente a harmonia de Tiferet, mas é possível sentir quando nossas ações parecem se encaixar perfeitamente… “em Malkuth”, através do mundo material. Uma música bem executada, uma pintura bem equilibrada. A bola de basquete que sai da mão do jogador e todos têm certeza de que acertará o alvo.

Da mesma forma, nossos sentidos não sabem identificar corretamente as pressões do mundo emocional, mas o descrevem inicialmente com sensações semelhante associadas à onipresença das emoções, à natureza difusa da passagem do tempo, à dificuldade de locomoção, ao fato de estarmos à deriva sofrendo da vontade das outras almas nesse mundo. No caso da magia ocidental, se interpreta, predominantemente, o plano astral como água.

Como faz o estudante para aprender sobre vinhos? É preciso registrar o que a sensação que se tem ao experimentar o vinho e também as informações disponíveis sobre o próprio vinho para fazer comparações. É útil o vinho e as frutas ou outras especiarias lado a lado para poder compará-los. Dou exemplo prático:

  1. Florais: acácia, rosa, violeta, flor de laranjeira, tília, narciso, jasmim.
  2. Frutas cítricas: limão, laranja, maçã verde, tangerina, abacaxi.
  3. Frutas vermelhas: amora, cassis, morango, framboesa, groselha, cereja, ameixa.
  4. Frutas amarelas: pêssego, damasco, manga, pêra, melão.
  5. Frutas naturalmente secas: amêndoa, avelã, noz.
  6. Frutas secas, cristalizadas, em calda e geléias: ameixa seca, figo seco, uva passa, geléia de amora.
  7. Especiarias: pimenta do reino, noz moscada, anis, cravo, canela.
  8. Vegetais: feno, musgo, capim, grama cortada, pimentão verde, azeitona, tabaco.
  9. Animais: couro, pelica, urina de gato, âmbar, almíscar, suor.
  10. Herbáceos: hortelã, sálvia, aneto, orégano, manjericão, alecrim, pinho, manjerona.

(Lista original)

Anote gostos, anote cheiros, anote sonhos. Anote os céus e os programas de TV. Tudo pode influenciar sua percepção das esferas. Isso é o Diário Mágico, um registro de cheiros, gostos e impressões sobre suas experiências pessoais.

Como começar?

Não tem segredos. Anote de manhã seus sonhos e as sensações sobre como vai ser o dia. Anote a data. No calendário judaico, a data implica, a partir do mês, um mazal/signo e, a partir do dia, a posição da Lua no céu (dia primeiro é sempre Lua Nova, dia 14 é sempre Lua Cheia). Se preferir, anote posição do Sol e da Lua conforme seu paradigma esotérico.

A primeira descoberta normalmente é o conjunto de fatores que torna o dia mais produtivo. Pode ser só uma noite bem dormida, pode ser o signo em que a Lua se encontra, pode ser o fato de ter feito todos os rituais corretamente no dia anterior.

Ao longo prazo, o registro diário permite comparar as sensações com as ações do dia-a-dia. O mal estar estomacal e a discussão com os colegas de trabalho. A dor de cabeça e a quantidade de livros empilhados na mesa para serem estudados. A orelha esquerda gelada e o medo do encontro social no fim de semana. O incômodo no punho direito e o atraso nas contas do mês.

Uma vez que essas pequenas coincidências rotineiras se mostrem, fica mais fácil explorar as relações entre os conceitos mais ocultos da cabala:

  • Ao meditar sobre a esfera de Hod, qual parte do corpo adormece? Como fica meu trabalho no dia seguinte?
  • Ao meditar sobre Netzach, que tipo de controle tenho sobre meus sonhos? Quais alegrias parecem maiores? O que sinto vontade de comer?

Existem técnicas para esses exercícios. Nem todas são tão ocultas, mas todas se constróem sobre o hábito de prestar atenção em nossa própria reação ao mundo. Sem exercício desse registro constante, nem o sommelier saberá reunir prato e vinho, nem o estudante de cabala saberá invocar as esferas corretas para vencer os obstáculos diários.

Shbaa.

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