Cabala Judaica #6: sobre Cabala e Vinhos I – a árvore simplificada

Sobre a árvore da vida, sem a complicação de mundos, reinos, elementais, nomes de deus e demônios arquetípicos

Vamos mais um passo atrás…

Tudo é a mesma esfera, tudo é aqui

A árvore da vida, Etz Chayim, é um diagrama que representa os aspectos do ser humano distribuídos em dez esferas. Apesar dos trabalhos de pathworking, pathfinding, viagem entre esferas etc. Não seria correto afirmar que estamos em Malkuth. Somos seres que existem em todas as esferas ou, mais condizente com a cabala judaica: “Malkuth é onde todas as esferas entram em contato”, onde os atributos de Keter, Chokhmah, Binah, Chesed, Gevurah, Tiferet, Netzach, Hod e Yesod ganham materialidade. Todas ao mesmo tempo.

Mas entender isso é como treinar para ser enólogo, esses cheiradores de vinhos ou cervejólogos se for de preferência. Cada vinho é diferente. Cada esfera é diferente. É quase impossível associar o gosto sorvido em um cálice ao excesso de iodo no solo onde cresceu o carvalho do barril usado para envelhecimento do vinho. Mas esse iodo influencia no gosto final. E o gosto pode ser detectado. Só que ele não vai ser descrito como “iodo”, mas como “metálico”, “seco”, “alto”. Assim é com as esferas.

Para treinar o paladar, existem hoje esses livrinhos padronizados com esquemas de sabores para os iniciantes aprenderem a diferenciar as nuances de uma bebida. Experimentando, colocando lado a lado, em um mesmo caderno, para registrar, memorizar e organizar, o estudante consegue se dar conta das diferenças entre “frutado” e “floral” ou “café” e “maltado”. Pode ver se o tipo de uva faz mesmo diferença, se a forma como é servido o copo faz diferença, se a temperatura, a época do ano, a safra influenciam no gosto e na textura da bebida. E, talvez, um dia o estudante consiga distinguir o iodo do solo e o carvalho do barril em que a bebida foi colocada.

Se minha comparação não ficou óbvia, o copo de bebida é a materialização de todo processo de criação do vinho (ou da cerveja), assim como Malkuth é a materialização de todo o processo de Criação. O copo é aquilo que conseguimos atingir através de nossos sentidos, assim como Malkuth é a parte da Criação que conseguimos atingir com nossos sentidos.

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Nosso esquema, na cabala judaica, não é um círculo de sabores. É o desenho da Árvore da Vida, Etz Chayim.

É impossível sentir diretamente a harmonia de Tiferet, mas é possível sentir quando nossas ações parecem se encaixar perfeitamente… “em Malkuth”, através do mundo material. Uma música bem executada, uma pintura bem equilibrada. A bola de basquete que sai da mão do jogador e todos têm certeza de que acertará o alvo.

Da mesma forma, nossos sentidos não sabem identificar corretamente as pressões do mundo emocional, mas o descrevem inicialmente com sensações semelhante associadas à onipresença das emoções, à natureza difusa da passagem do tempo, à dificuldade de locomoção, ao fato de estarmos à deriva sofrendo da vontade das outras almas nesse mundo. No caso da magia ocidental, se interpreta, predominantemente, o plano astral como água.

imagem preto e branca de um rascunho de diário mágico à caneta com as esferas da árvore da vida não conectadas mas com os triângulos em evidência
Página de Diário de Exploração

Para facilitar a visão de um iniciante para a Árvore da Vida, cabe simplificar algumas ideias de forma bem abstrata e metafísica. Abstrata, pois tudo que está fora de Malkuth não está pleno. Metafísico, pois tudo que está fora de Malkuth não possui representação física e não obedece às leis da natureza, a physis.

Pra cima – quando pensarmos em “para cima”, na árvore, pensemos em unificação, abrangência, macro, longe.

Pra baixo – quando pensarmos em “para baixo”, na árvore, pensemos em individualidade, micro, perto.

Keter é a unidade original. Chokhmah é tudo sem separação. Como uma floresta em que as árvores não têm consciência de que são indivíduos. Todas as árvores são “a floresta”. Malkuth é o tudo-junto, materializado. Diferente da unidade em Keter, Malkuth é o “todos e cada” com sua individualidade preservada, mas em constante interação. Se não houver interação, caímos no outro lado, o Sitra Ahra.

Tiferet é o “meio”, e o “topo” de tudo que é humano. Àcima estão as interações entre os humanos (alguns chamam “egrégoras”) e as interações entre ecossistemas. Abaixo estão a mente e as emoções, o microcosmo, o mundo interior do humano.

Pra esquerda – quando pensamos no “lado esquerdo” da árvore, pensamos em separação, análise, “isso, não aquilo”. Hod é a separação dos pensamentos dentro da mente. É entender que dois mais dois somam quatro e não somam cinco. É aceitar que ou gastamos dinheiro com comida, ou gastamos dinheiro com livros. É o entendimento do limite. Gevurah, àcima de Tiferet, é o “esse sou eu, isso são vocês”. E se alguém tentar atravessar meu limite, eu preciso dizer “não” e até distribuir uns sopapos quando necessário.

Pra direita – quando pensamos no “lado direito” da árvore, pensamos em reunião, síntese, “isso e aquilo têm tanta coisa em comum”. Netzach é o “isso não é, mas pode ser”, é a mente quebrando barreiras. Chesed, àcima de Tiferet, é o “temos comida para todo mundo, e se não tiver eu faço mais”.

Através da filosofia ocidental pitagórica, chegou a nós a ideia da síntese através do contraditório. Tese e antítese. Essa ideia data aproximadamente da visão da árvore em triângulos ao em vez das longas conexões entre as diversas esferas. Hod e Netzach se equilibram em Yesod. Gevurah e Chesed se equilibram em Tiferet. Chokhmah e Binah se equilibram em Keter.

Chesed chamaria todo mundo para jantar. Gevurah separaria um prato só seu. Tiferet “acontece” quando Chesed e Tiferet se equilibram e conseguem distribuir comida suficiente para todo mundo, conforme a necessidade de cada um.

A ideia de “limites” da árvore, topo e base, mudaram também nesse tempo. Tanto Binah quanto Chokhmah já foram chamadas de “Malkuth de cima”. Primeiro foi Chokhmah, quando vista como aquilo que contém (pois dela emanam) todas as 7 esferas abaixo dela. Diz-se que a letra Alef possui dois Yod em seu desenho. O inferior é Malkuth, e o superior é Chokhmah. Depois foi Binah, vista como o peso que contém todo o Tempo, a Era, o Aeon. Se Malkuth é a Terra, Binah é o Chumbo. Hoje, o Todo que se opõe a Malkuth é Keter. Uma vez Keter era apenas o ponto inicial, hoje é vista como toda a Existência.

Bem, mas isso já é outra história…

Shbaa.

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