Morte, Pós-Vida e Reencarnação na China

 

 

 

Ao falarmos do oriente, imediatamente nos vem à mente a ideia da reencarnação. Para alguns, conceitos mais complexos – como a roda das reencarnações – também acompanham essa ideia.

Ainda assim, continuando com nossa série sobre as diferenças conceituais entre o oriente e o que se fala do oriente e visto a necessidade de escrever um pouco mais longamente sobre esse tema antes de adentrar no material especializado de medicina tradicional chinesa, decidi escrever um texto introdutório quanto a como as diferentes religiões chinesas interpretam a morte, pós-vida e reencarnação.

A Antiquíssima Religião

A história do pensamento místico chinês é muito antiga. Se considerarmos que a china já era habitada por pré-humanos antes mesmo do desenvolvimento do homo sapiens sapiens, talvez até mais antiga que a existência de nossa espécie.

Mas, como tudo que se refere ao passado muito remoto, pouco sabemos sobre essas eras antigas.

Sabemos, contudo, que durante a dinastia Shang (1.200 a.e.c a aprox. 1.045 a.e.c) um pensamento religioso consolidado já existia naquela região.

Esse pensamento é interessantemente parecido com o egípcio antigo em alguns pontos, e extremamente diferente em outros.

Elucidemos.

O pensamento da assim chamada “religião folclórica chinesa” é um pensamento de culto aos ancestrais e à divindade humana.

Há, como em toda religião, algumas figuras divinas “naturais”, mas o universo em si é visto como uma coleção de forças místicas que podem ser controladas por grandes Xamãs – os quais podem desenvolver um tal degrau de sabedoria que os elevaria de fato ao status divino.

Assim como nas religiões mediterrâneas, durante a dinastia Shang desenvolveu-se um forte culto aos ancestrais, com cerimônias de sacrifícios de alimentos e bebidas aos mortos da família, mas também um forte culto à figura de autoridade suprema que era o Imperador – visto como um homem sábio e um potencial deus encarnado.

Diferentemente das religiões mediterrâneas, contudo, isso não significava a inefabilidade do imperador ou que ele possuísse poderes místicos capazes de alterar o fluxo e as leis da natura.

O imperador era divino porque, usando de sua sabedoria ancestral, podia prever os fluxos e refluxos da natureza – assim sendo auxiliado pelos ancestrais na tarefa de adaptar os seres humanos a esses fluxos e refluxos, trazendo prosperidade.

Dessa época restam registros do oráculo usado por esses imperadores. São tabletes de ossos – normalmente escápulas bovinas ou cascos de tartaruga – que eram inscritos com caracteres místicos e depois cozidos no fogo.

Ao cozinhar, esses tabletes rachavam e quebravam. E, ao analisar as rachaduras e quebras que ocorressem nesses tabletes, o imperador ou os xamãs eram capazes de obter conhecimento oracular sobre os fluxos do universo, o futuro e outros assuntos.

 

 

A religião folclórica chinesa não só foi inspiração para todas as atuais religiões chinesas como também continua a existir até os tempos modernos. A divinização de figuras como GuanYu, por exemplo, é devida ao conceito de que seres humanos podem se tornar deuses por simplesmente serem extremamente bons no que fazem. Mais importante ainda é lembrar que a habilidade transcendental advém da harmonização do ser com as leis do universo e de sua sabedoria para perceber e manipular essas leis adequadamente – sempre as percebendo tanto em profundidade quanto em detalhe. Em outras palavras, até os dias de hoje a China vê nos seres humanos a possibilidade e o poder para construir um futuro divino e superior – bastando meramente que o ser em questão percorra o caminho da sabedoria.

A religião folclórica chinesa é muitas vezes caótica e depende muito de cada xamã e de cada local onde é praticada. Não é possível falar de características gerais de morte, pós-vida e reencarnação nessa religião, exceto no que tange ao tema da possibilidade de divinização do ser humano, dos oráculos e das grandes forças do universo (como a das estrelas) estarem ao alcance da manipulação humana.

 

Confúcio Abre Caminhos

Ainda que haja disputas quanto a sua existência, arqueologicamente é dito que Confúcio nasceu entre 551 e 449 a.e.c.

Sua principal influência foi racionalista, sistematizadora, dogmatizadora.

Talvez da mesma forma como citamos alguns poucos nomes para falar do iluminismo e nos esquecemos que esses nomes mesmos eram os porta-vozes de um movimento geral de insatisfação europeia, também Confúcio é aquele cujos escritos foram divinizados, mas que era acima de tudo um porta-voz da insatisfação de sua época. Insatisfação com a política, com o baixo nível de instrução escolástica dos nobres e imperadores – uma hipocrisia ao considerarmos que a religião da época frisava que eles eram imperadores por serem homens sábios -, com as guerras constantes, com os desastres naturais – entendidos como sendo culpa dos nobres, sábios e xamãs, visto que eles deveriam ter alertado o povo desses acontecimentos e prevenido-os -, dentre outros similares.

Assim, em meio a sua moral e a seus códigos de conduta, Confúcio aparece enfim como o fundador de uma semi-religião: uma “religião” sem deuses, uma religião de moral e código de ética, uma religião de pensamento filosófico, uma religião que prega que os seres humanos devem cumprir com rituais e tradição – não pelo que eles possam significar simbolicamente, mas porque, ao cumprir com os rituais, os seres humanos encontram entre si uma base comum de civilidade e negociação.

 

Por meio da influência de Confúcio, criou-se uma das mais interessantes e importantes características da cultura asiática em geral: a ideia de que a tradição e os rituais devem ser mantidos, mesmo quando aparentemente são inúteis. Isso porque o objetivo final do ritual jamais está contido nele mesmo, mas sim na criação de paz e seguridade social, garantindo que aqueles que cumpram um determinado ritual criem entre si situações de paz. Talvez, uma faca de dois gumes, pois sacrifica muitos rituais e o conhecimento ancestral neles contido em troca de manter aparências que não necessariamente precisam ser mantidas. Motivo também pelo qual, por várias vezes, aqueles envolvidos em trabalhos esotéricos se viram sob a mira e em batalha com os Confucionistas – por exemplo, os alquimistas taoístas, que perderam quase toda a tradição da alquimia sexual, dada a ênfase Confucionista na manutenção de rituais de virgindade e repressão sexual.

Ainda que seja cultuado em templos e incensos sejam queimados a Confúcio, a ele não é dado status divino como um ser capaz de criar mundos ou qualquer coisa do tipo. São mais sacrifícios a um importante ancestral do que cultos a um deus. E sua influência foi marcante. Perante o estímulo do Confucionismo, toda aquela religião folclórica chinesa antiga teve de adaptar-se ou morrer em pilhas de burocracia, servidores públicos educados extensivamente na leitura de clássicos e produção de poesia, dentre outros hábitos e rituais confucionistas.

Claro, Confúcio não era nenhum rebelde. Em seu esforço para achar paz, ele se baseou nas tradições rituais das dinastias antigas, inclusive no culto aos ancestrais – que é parte integrante e importante do Confucionismo e deve ser realizado para assegurar que haja uma conformidade de ética e bom-trato entre os seres humanos.

Assim, sua influência, por um lado, podou e destruiu muito conhecimento esotérico precioso. Por outro lado, garantiu a criação de um sistema de ética que permitiu a povos dos mais diferentes tipos e com predisposições muitas vezes extremamente violentas, manter relativa paz social.

Por fim, impactou profundamente no sentido de mudar o rumo do esoterismo chinês, transformando: conhecimento oral em conhecimento textual; conhecimento místico em práticas a serem testadas e aprovadas ou recusadas; e o contato com o mundo espiritual em algo que deveria ser retirado da base semi-caótica em que se encontrava e sistematizado para obter status e reconhecimento global.

Em uma comparação moderna, podemos dizer que a religião folclórica chinesa era parecida com o estado dos muitos candomblés brasileiros antes da influência religiosa cristã. Fortalecida essa influência, esses candomblés e depois também as umbandas, começaram a se homogeneizar segundo as necessidades do status quo social geral.

 

Taoísmo Surge

É totalmente incerto quando o taoísmo surgiu na china.

O Tao Te Ching, atribuído a LaoZi, “fundador” do Taoismo, é datado historicamente como tendo surgido por volta de 400~300 a.e.c.

 

 

Contudo, novamente textos como o HuangDi Neijing são mitologicamente datados de milênios antes dessa data, e muitos dos praticantes taoístas seguem ferrenhamente essa linha de pensamento – que talvez não esteja totalmente errada.

Por outro lado, o que exatamente diferencia o taoismo da religião folclórica chinesa? É possível que ambos tenham coexistido no passado? Ou talvez, é possível que o taoismo seja o ensino esotérico reservado apenas aos xamãs e sábios dos tempos antigos?

Em uma perspectiva mais cínica, o taoismo apresenta muitas similaridades com o confucionismo, mas uma oposição justamente à ênfase confucionista na hierarquia e ordem social, valorizando individualismo e espontaneidade. Não seria ele uma reação política, religiosa e emocional ao confucionismo ?

Talvez o mais provável seja algo totalmente diferente. E o motivo é o Período dos Estados Combatentes, que nos trouxe a sistematização do yin-yang, cinco elementos e I-Ching.

Sabemos que muito do taoismo já existia nas antigas religiões xamânicas chinesas. O I-Ching, por exemplo, era praticado, com regras um tanto quanto diferentes, mas princípios similares, no jogo do Oráculo de Ossos.

Os ossos eram inscritos com símbolos para palavras e interpretações que aparecem tanto por extenso no Oráculo de Ossos como cifrados em hexagramas no I-Ching.

Por quê?

Oras, como vimos, a influência do Confucionismo foi forte em toda a china. E nem sempre essa influência foi positiva. Sendo mais claro, fanáticos confucionistas e aristocratas em busca de conformidade social levaram inúmeros escritos, práticas, sectos e tradições inteiras à morte.

Assim como ocorreu nos pogroms ocidentais, durante toda a história chinesa inúmeros “inimigos públicos” foram feitos pela classe aristocrática confucionista. Dentre estes, muitos taoístas e budistas. Claro, para não sermos injustos, devemos adicionar ainda que os próprios taoistas e budistas nem sempre foram pacíficos, mas também tiveram sua boa sorte de participação nas intrigas políticas, pogroms e rebeldias. Os monastérios shaolin com suas técnicas de luta assassina existem por um motivo muito prático.

Enfim. Voltando aos oráculos de ossos e ao I-Ching.

 

O processo iniciado por Confúcio iria se fortalecer com a passagem dos séculos. Ao mesmo tempo, os Confucionistas, ou simplesmente pessoas comuns influenciadas pelo racionalismo Confucionista, iriam tentar transcrever e adaptar as práticas antes meramente orais ou místicas, para livros, dogmas e verdades absolutas.

Assim, com o surgimento do chamado cânone taoista, adveio o estabelecimento dessa religião, muitas vezes confusa e autocontraditória em seus diversos sectos e práticas – mas também cheia de princípios, práticas e verdades. Isso aponta para um motivo muito mais provável para o surgimento da religião taoista: uma conjunção de fatores que incluem necessidades esotéricas, políticas, ideológicas e psíquicas da nação.

Nesse ponto, vale a pena abrir um parêntese para explicar ao ocidente outro traço do pensamento oriental.

Claro, há muitos que meramente cultuam as divindades taoistas sem prestar atenção ao culto e aos princípios do que estão cultuando. Isso permite que cultos sejam prestados a diversas religiões diferentes, as vezes com princípios também contraditórios. Por outro lado, há aqueles que acreditam piamente em só um secto ou interpretação dos textos antigos e o seguem à risca.

Mas o ideal de mago, de médico ou de outro sábio chinês não se encaixa em nenhuma dessas características. Os princípios escritos e os diversos textos aparentemente autocontraditórios são meramente enigmas a serem decifrados pela pessoa dedicada, e não raro isso de fato se prova assim.

Não importa quão grande e quão poderoso o autor de um texto, é inútil estudá-lo sem entendê-lo, – meramente repetindo sua sabedoria -, pois o progresso é na sabedoria do próprio mago e inútil se apenas em aparência.

Assim, ao achar um texto que aparentemente contradiz o que conhece da prática, o mago oriental idealmente não o descarta de primeira. Ele o estuda e, caso não consiga entendê-lo, espera até que sua própria compreensão e sabedoria no assunto daquele texto, ou do contexto em que foi escrito, lhe permitam entendê-lo em profundidade.

O estudo da história dos textos antigos é talvez tão importante quanto o estudo dos textos em si, pois que eles são escritos não como simples manuais para se passar o conhecimento, mas, sim, como facilitadores para que uma sombra da experiência, conhecimento e profundidade alcançada por aquele que o escreveu toquem a quem lê.

Isso é parte dos motivos pelos quais o conhecimento místico oriental requer muitas vezes que seus estudantes aprendam as artes e formas de entretenimento que eram comuns aos mestres que desejam compreender. Como há a passagem de uma sabedoria ao estudante, e não de mero conhecimento, é necessário que o estudante possua ao menos uma base com que possa perceber e absorver esse conhecimento.

No tema do pós-vida e da morte, por sua vez, o Taoismo mistura um pouco da antiga religião com concepções budistas. As interpretações quanto ao significado desses textos são muitas, e as ideias quanto a reencarnações também várias. Contudo, de forma geral o Taoismo prega que o ser humano possui uma ou mais almas, que são a fonte de suas faculdades superiores, como a consciência de si e o intelecto.

 

Já quando do momento da morte, essa alma irá se dissipar e dissolver no ambiente. Eventualmente os remanescentes dessa alma (somente uma parte verdadeiramente indissolúvel e imortal dessa alma e que não inclui memórias, intelecto ou consciência) irão se condensar em uma nova vida. E isso será uma espécie de reencarnação. Alguns dizem que almas com fortes apegos ao mundo conseguem resistir a se dissolverem. E nisso explicam fantasmas e similares. Ainda alguns sectos taoistas dizem que, por meio da adequada preparação e cultivação do corpo e da alma e feito um suicídio ritual em específico, é possível ao ser humano preservar sua alma em um estado imortal. Alguns dizem que para isso é necessário que o corpo também seja preservado, em estado mumificado.

Nessa religião muito depende de qual interpretação se escolhe seguir.

 

 

O Budismo Complementar

Sidarta Gautama, o Buddha tão conhecido no ocidente, é dito ter vivido em 600 a.e.c.. Seus ensinamentos e práticas teriam chegado à china por volta de 400 anos mais tarde, durante a dinastia Han (206 a.e.c a 220 e.c.). Há de fato histórico de templos sendo construídos para budistas por volta do ano 68 e.c.. O impacto do budismo na China foi também grande, especialmente entre as classes mais pobres.

Enquanto o Confucionismo era a prática de preferência dos burocratas e o Taoismo a prática preferida dos aristocratas místicos, o budismo se espalhou entre as classes mais pobres dada sua ênfase em compaixão e bondade, além de requerer pouco em termos de alfabetização e cultura literária clássica. Com o tempo, o budismo acabou tornando-se um dos maiores inimigos dos diversos impérios chineses, dadas razões econômicas.

Resumindo a história, o budismo prega a pobreza como caminho de iluminação. Assim, com o passar dos séculos a imensa quantidade de doações em moedas de metal acabou se acumulando nos templos budistas, que derretiam as moedas e faziam estátuas de Buda – enquanto o império aos poucos ficou sem matéria-prima para imprimir seu dinheiro, havendo diversas guerras contra templos budistas por conta do metal de que eram feitas as estátuas.

Por sua vez, em termos místicos o budismo competia com o taoismo, visto que suas percepções ideológicas eram bastante diferentes. Também possuía o budismo uma miríade de sectos diferentes, com práticas também bastante diferentes entre si.

Assim, ao falarmos de pós-vida temos tanto visões com mais componentes indianos, aceitação da existência de deuses e planos de existência, da transmigração da alma humana para estágios animais de existência, quanto também outras que são bem mais radicais, pregando que a individualidade se extingue com a morte, e que a reencarnação é na realidade um processo de iniciar outra vida com o final de sua própria, sem que haja passagem de memórias, intelecto, experiência ou similares – havendo apenas a passagem do karma.

 

 

Na Prática Comum

Em termos do dia-a-dia chinês, esse não difere muito do dia-a-dia ocidental. Há crenças em céus e infernos, em aniquilação total da existência e também em estágios diferentes como mundos espirituais ou fantasmas.

Isso é verdade especialmente após os anos de comunismo, que prega um materialismo ferrenho e durante décadas declarou todos os antigos sábios chineses (Confúcio, Buda e LaoZi inclusos) como enganadores e fontes do atraso econômico e tecnológico da nação.

Assim, a China moderna talvez tenha mais aceitação à ideia de reencarnação que a maioria dos países do ocidente. Mas não podemos dizer que os chineses creem ferrenhamente na reencarnação. Com exceção do povo tibetano, o povo chinês de facto é muito mais heterogêneo em suas crenças do que muitos poderiam pensar.

 

 

Na Prática Esotérica

É possível contatar diversos tipos de entidades em projeção astral, incluindo muitas dos diversos panteões chineses. É também possível encontrar entre os chineses uma vasta quantidade de informações e práticas esotéricas, cada qual com efeitos mais ou menos impressionantes e/ou úteis.

Na medicina tradicional chinesa, por exemplo, conhecimentos taoistas da interpretação das Cinco Almas nos permitem influenciar estados emocionais, intelectuais e da consciência por meio da acupuntura e moxabustão – assim como diagnosticar quando alterações nos fluxos energéticos do corpo estão sendo causados ou causando essas alterações.

Contudo, é necessário ter muito cuidado ao lidarmos com o conhecimento esotérico chinês, pois sua natureza é extremamente complexa e os mal-entendidos, assim como as interpretações errôneas ou simplesmente incompletas dos textos e conhecimentos abundam.

Com o ressurgimento da medicina tradicional chinesa, muito tem sido pesquisado, testado e trabalhado em universidades. Isso nos tem trazido um apanhado de conhecimentos extremamente úteis na lide com os textos antigos.

Contudo, há ainda um longo caminho a percorrermos antes de desvendarmos a menor parte desses enigmas da antiguidade.

 

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