Entrevista – Bluefluke

E como nosso primeiro entrevistado, logo um internacional –  Archtraitor Bluefluke (vulgo Nathan Smith)! Ocultista e ilustrador de Cincinnati (EUA), ganhou destaque principalmente em comunidades dedicadas a Magia do Caos por ser autor do Psychonaut Field Manual (“Manual de Campo do Psiconauta”, em tradução livre) – um guia para iniciantes na Magia, feito através de seu traço cartunesco, referências a games e linguagem leve. Mesmo sem possuir ainda uma versão em português, o manual alcançou uma popularidade muito grande em grupos brasileiros. Para conhecer mais detalhes sua trajetória, projetos e opiniões, confira agora nossa conversa o Bluefluke!

For English readers followers of Bluefluke: just scrow down, and read the interview on the original version!

kallisti_by_bluefluke-d8bltlu[1]Equipe Platinorum: Como você iniciou seu caminho na Mágika e no Oculto? Você ainda estuda outras áreas além de Magia do Kaos?

Bluefluke: Quando eu era jovem, eu sofria frequentemente de Paralisia do Sono. Isso arruinou a minha vida. É difícil se preocupar em fazer amigos ou ir bem na escola quando você está com medo de ser enforcado até a morte por entidades “demoníacas”. Isso abaixa o volume de todas as outras coisas. Como qualquer pessoa que já experimentou Paralisia do Sono pode te contar, doutores são inúteis nesse caso e contar para aqueles que você ama só vai fazê-los pensar que você está “quebrado” ou louco. Eu fingi estar “curado” e procurei, silenciosamente, por soluções alternativas na literatura oculta. Não foi uma pesquisa fácil, dado a grande quantidade de informação (tanto verdadeira quanto falsa), mas, eventualmente, o que eu encontrei funcionou. Descobri que havia muito mais no mundo do que nos é contado.

Ao longo do caminho, fiquei obcecado com Alquimia, aprendi sobre sua verdadeira natureza e comecei minha jornada ali. Segui ramificações, estudei tudo em que pude colocar minhas mãos, me juntei e abandonei diversos grupos, mas, eventualmente, achei o nicho e a metodologia que funciona bem pra mim. Eu ainda amo estudar todo e qualquer ramo do Esoterismo Ocidental. Você nunca sabe que novas tecnologias você pode encontrar no caminho. Elas são todas tão bonitas.

 

EP: Como são suas relações e sua visões sobre os Deuses? Algum panteão ou deidade favorita?

BF: Uma Forma-Deus é o que você faz dela. Qualquer método envolvendo-as é válido se te serve e você está obtendo o que você deseja da experiência. Pra mim? Eris é a minha “miga”.

 

EP: Sobre seus trabalhos no Psychonaut Field Manual, há planos para uma versão impressa? Você tem outros projetos combinando arte e mágika em vista?

BF: Assim que eu completar os seis capítulos, provavelmente irei fazer múltiplas versões impressas com custo variado, indo desde uma acessível revista em quadrinhos até uma versão de capa dura brilhante cheia de extras, vendidos pelo custo da feitura e envio. Não tenho interesse em lucrar com o P.F.M. já que isso iria arruiná-lo e anular todo o propósito que me levou a fazê-lo.

Qualquer pessoa está livre para copiá-lo ou compartilhá-lo, seja digital ou fisicamente. Pra sempre. Desde que não o vendam ou coloquem num paywall, eles tem minha benção.

Eu também estou quase terminando meu próprio Tarot, apesar dele estar na espera até o P.F.M estar completo, para que eu possa dar a ambos projetos a atenção que eles merecem.

 

take_my_breath_away____by_bluefluke-d9dl01t[1]EP: Sabemos que você considera arte (gráfica, escrita, música…) como linguagem da Mágika. Como a criatividade pode ajudar alguém em seus trabalhos mágikos?

BF: Ser apto a expressar seu desejo ou objetivo de forma visual, narrativa ou musical é um fator crítico para obtê-los. Faz com o que todo o processo fique muito mais divertido e faz com que seja mais fácil conseguir os resultados.

 

EP: Como podemos usar trabalho mágiko diretamente com arte?

BF: Sigilos são proeminentes aí. Codificar sua intenção através do contar de histórias (hiper sigilos) também. Desenho automático, escrita e canto “em línguas” aparecem como clássicos por uma razão, eles funcionam e, frequentemente, resultam em arte bela. Uma pessoa pode tornar a arte parte do cotidiano* dela e estar sensivelmente consciente de que isso irá melhorar grandemente a qualidade de seu trabalho.

Isso dá mais profundidade a todo experimento, muito mais do que se não houvesse arte.

*N.T.: Expressão traduzida do termo “daily ritual“, provavelmente usado com intenção por sua ambiguidade, que pode significar “rituais diários” como “cotidiano“.

 

EP: O que você sugere para aqueles que querem melhorar a criatividade?

BF: Prática! Como em tudo, quanto mais você pratica, melhor você se torna. Faça o trabalho e você terá resultados. Se você ficar sentado, fantasiando ao invés de fazer o que tem que ser feito, você irá falhar. Isso vale para qualquer coisa, mas duplamente para mágika.

 

EP: Vemos muitos dos trabalhos mágikos de hoje em dia como apenas uma melhoria das práticas da Idade Média e Renascença. Sendo a Magia do Kaos o primeiro sistema que procura romper isso, qual é a sua visão no papel dela num livre desenvolvimento mágiko, sem as barreiras que outros sistemas geralmente possuem?

tarot_card_back__post_modern_by_bluefluke-d7kcgizBF: Tudo está subjetivo em relação ao indivíduo. Algumas coisas funcionam para uns mas falham para outros. Por exemplo, aqueles que não conseguem entrar em Gnosis através do ritual ocidental tradicional podem consegui-lo através da meditação no estilo oriental e vice-versa.

Nenhuma tecnologia é “melhor”, nem o praticante “falho” se o que ele usa não é compatível com ele. Todos tem um tipo de personalidade diferente e, consequentemente, precisam de conjuntos diferentes de ferramentas. O defeito nas tradições rígidas e dogmáticas é que mesmo que alguém consiga utilizar uma ferramenta que não combine com ele, ele provavelmente o fará muito porcamente.

Esses sistemas específicos costumam funcionar para tipos específicos de personalidades em detrimento de todas as outras e, então, eles produzem magos desnivelados, em geral.

Especialize em demasia e você irá gerar em fraqueza.

Magia do Kaos requer que cada mago construa seu próprio caminho baseado em suas próprias necessidades, a partir de quaisquer ferramentas que funcionem melhor para eles. Como tal, ela tem uma taxa de sucesso muito maior do que sistemas mais velhos e tradicionais, e forma um mago muito mais criativo, auto confiante e equilibrado.

 

EP: Muitas pessoas procuram usar Magia do Kaos para criar seus próprios sistemas mágikos. Qual são suas visões sobre isso? Você tem alguma dica sobre criação de sistemas?

BF: Na Magia do Kaos, as possibilidades são limitadas apenas pela sua criatividade e inteligência. Como expliquei anteriormente, isso provavelmente leva a um mago muito mais equilibrado. Entretanto, para fazê-lo você PRECISA entender como o maquinário subjacente a esses sistemas realmente funcionam. A melhor dica para conseguir isso é comparar diversas ferramentas similares que possuam alta taxa de sucesso. Pegue o que elas tem em comum e jogue o resto fora. Experimente adicionando coisas que você acredita que irão funcionar e seja honesto com você mesmo se elas não funcionarem. Ao final, você terá esculpido um conjunto de ferramentas que serve como uma luva e te dá resultados, todo o tempo.

–Trad. Thiago Jamas


 

[English]

And for our first interview, and international guest – Archtraitor Bluefluke (A.K.A. Nathan Smith)! Occultist and artist from Cincinnati (Ohio), he was featured mainly on Kaos Magick communities for his Psychonaut Field Manual – a beginners guide on Magick made through his cartoon traces, gaming references and light language. Even without a Portuguese version, the Manual achieve great popularity in Brazilian groups. To know more about his path, projects and views, check out now our interview with Bluefluke:

 

Platinorum Team: How did you started on magick and the occult? You still study other areas besides Kaos Magick

Bluefluke: When I was young I experienced Sleep Paralysis frequently. It ruined my life. It’s hard to care about making friends or doing well in school when you’re afraid that you’re going to be strangled to death by “demonic” entities. It turns down the volume on everything else. As anyone who has experienced S.P. can tell you, doctors are useless in this regard and telling your loved ones will only make them think that you’re broken or crazy. I pretended to be “cured” and quietly sought alternative solutions in occult literature. It wasn’t easy research, given the vast amount of information (both true and false) but eventually what I found worked. I came to realize that there was far more to the world than what we are told.

Along the way I became obsessed with Alchemy, learned it’s true nature and began my journey there. I branched out, studied everything I could get my hands on, joined and abandoned several groups but eventually found the niche and methodology that works well for me. I still love studying any and all branches of Western Esotericism. You never know what new technologies you may stumble on along the way. They’re all so beautiful.

 

PT: How are you relation and views about the Gods? Any panteon or deity you favor?

BF: A godform is what you make of them. Any method involving them is valid if it works for you and you’re getting what you want from the experience. As for me? Eris is my homegirl.

 

PT: About your works on Psychonaut Field Manual, there are plans to a printed version? You have any other projects combining art and magick on view?

BF: Once I complete all six chapters I’ll likely print multiple versions of varying cost, from an inexpensive comic book version all the way a glossy hardcover with a bunch of extras, sold at whatever price it costs to manufacture and ship them. I have no interest in profiting from the P.F.M. as that would ruin it and void the whole point of me making it in the first place.

Anyone is free to copy, print or share it, whether digital or physical. Forever. As long as they don’t sell it or put it behind a paywall, they have my blessing.

I’m also mostly done with my own Tarot deck, though it’s on hold until the P.F.M. is done so that I can give both projects the attention they deserve.

 

PT: We know your views of art (being graphic, writing, music…) as the language of magick. How creativity can help someone on his magickal works?

BF: Being able to express your desire or goal in a visual, narrative or musical form is critical to attaining them. It makes the whole process much more enjoyable and getting results far easier.

 

PT: How we can use magick working directly with art?

BF: Sigil magic is a big standout here. Encoding your intent through storytelling (hyper sigils) is another. Automatic drawing, writing and singing “in tongues” stand as classics for a reason, they work and very often they turn out beautiful art. One can make art part of their daily ritual and be reasonably sure it will greatly enhance the quality of their work.It gives every experiment a greater depth than without.

 

PT: What you suggest for those who want to improve they creativity?

BF: Practice! As with anything, the more you practice the better you will become. Do the work and you will get results. If you sit around fantasizing about it rather than doing the actual work, you will fail. That goes for for anything but doubly so for magic.

 

PT: We see many of today magickal works are just a improvement of the Middle Ages and Renaissance practices. As Kaos Magick being the first system that seeks to break with it, what’s your vision on it’s role in a free magickal development, without the barriers other systems usually have?

BF:  Everything is subjective to the individual. Some things work for some but fail for others. For example, those who are completely incapable of achieving Gnosis through traditional western ritual work may be able to reach Gnosis through eastern style meditation and vice versa.

Neither technology is “better”, nor is the practitioner a failure if it is not compatible with them. Everyone has a different personality type and thus requires different set of tools. The flaw in rigid dogmatic traditions is that even if one is able to wield a tool unsuited for them, they will likely do so very poorly. These specific systems tend to work for specific personality types at the expense of all others and thus they produce uneven magicians on the whole.

Overspecialize and you breed in weakness.

Chaos Magic demands that each magician construct their own path based on their own needs,  from whatever tools work best for them. As such, it has a much higher success rate than older more traditional systems and leads to a more creative, self reliant and balanced magician.

 

PT: Many people seek to use Kaos Magick to create their own magickal systems. What are your views on these? Do you have any hints on system creation?

BF: With Chaos magic the possibilities are limited only by your creativity and intelligence. As I explained before, this will likely lead to a much more balanced magician. However, in order to do so you MUST understand how the underlying machinery of thesesystems actually work. The best tip for doing so is to compare several similar tools that have a high rate of success. Take what they have in common and throw away the rest. Experiment by adding things to it that you believe will work and be honest with yourself if they don’t.In the end you’ll sculpt a set of tools that fit like a glove and get you results, every time.

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