Cabala Judaica #3: Mesmos números, mesmas energias

Disse Deus mais a Abraão: A Sarai tua mulher não chamarás mais pelo nome de Sarai, mas Sara será o seu nome. (Bereshit/Gêneses 17:15)

A maioria das pessoas fica imediatamente curiosa, intrigada com a ideia de manipulação de energias através da combinação dos valores numéricos. Há duas coisas a serem ditas a respeito:

  1. Não foi para isso que o sistema gemátrico foi criado.
  2. Apesar disso, funciona.

1 Não foi para isso que o sistema gemátrico foi criado.

A função principal é corroborar com a interpretação dos textos sagrados e, de quebra, garantir que os textos de séculos antes da Era Comum permaneceriam inalterados através dos anos.

Mesma energia, mesmos números.

Se em 500 a.C. alguém ensinou que a primeira frase da Torah tem valor X, espera-se que a soma permaneça X em 2015, certo? Se alguém, nesse meio tempo, mudasse as letras, a soma final mudaria. É o mesmo princípio usada até hoje na redundância de informação em dados digitais. Envia-se 100 letras. Faz-se uma conta (soma, multiplicação, XOR, hash) dos valores. Envia-se o resultado. O computador que recebe os dados refaz a conta e confere com o resultado enviado. Se os valores não são iguais, ignora-se a informação enviada e pede-se que seja enviada novamente.

Ao mesmo tempo, há codificações nas escolhas de palavras. As palavras temor (yirah indica a sensação de reverência a algo muito maior do que si mesmo), leão (aryeh, tanto o animal quando o signo) e feminino (nekeivah) trazem o valor 216. Na interpretação da Torah, então, os três símbolos são compreendidos como falando sobre a mesma coisa, o mesmo aspecto de D’us.

2 Apesar disso, funciona.

Uma dica sobre o funcionamento do sistema está na palavra grega utilizada para este processo: isopsefia, mesmas pedras. Coincidência etimológica ou não, os números das palavras vieram a ser usados como forma de canalizar a energia por elas representadas de acordo com suas ligações com as “contas”.

Um exemplo padronizado e corrente desse uso das palavras que levam a uma dada energia é o tarot. O feminino, o leão, o temor se encontram em uma lâmina chamada A Força. A palavra para “força” em hebraico é Geburah, que também soma 216. E 2+1+6, aliás, somam 9, que leva à letra Tet. Nessa lâmina, então, encontram-se símbolos que conduzem a uma mesma energia, harmonizando condições para que o estudante entre em contato com ela. A forma ritual do contato, em si, é parte de um processo muito maior, que se constrói a partir da leitura do trecho da Torah associada aquela esfera, aquela palavra, aquele número.

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Como regra geral, os estudos judaicos desencorajam o uso de ferramentas de terceiros. O estudante deve construir suas próprias ferramentas a partir de seus estudos e suas experiências. Grimórios e catálogos de entidades seriam apenas diários de estudantes de magia. De nada serviriam, sendo trabalhos incompletos, reflexos de uma psiquê em construção.

Apesar dos pesares, Akiva, Isaac Luria, Chayim Vital, Baal Shem Tov — todos os Shem Tov, aliás — indicam que meditar sobre o Nome de D’us leva a estados alterados de consciência. Promessas de contatos com o Pardes, com a Sabedoria, com o sábio são atestadas como verdadeiras por cabalistas de todas as eras.

No tempo do grande rabino Akiva, “o nome de D’us” é mencionado com certa reverência, ainda que muito rapidamente. Talvez todos soubessem o que era “o nome de D’us”, talvez fosse um segredo. Com o tempo, o “nome” ocultou-se em ares de segredo. A verdadeira pronúncia foi-se perdendo, ou dizem que se perdeu para desestimular seu uso. A mera pronúncia deu lugar a cálculos, permutas e combinatórias de letras e valores. O “nome” passou a ser impronunciável, a ser uma frase, a ser um conjunto de nomes. E por fim o valor passou a ser mais importante que o nome e que a entidade nomeada.

Com Isaac Luria, o “nome de D’us” era algo oculto em cada frase e em cada palavra. Nomes cifrados, ocultos, secretos; e nomes bem visíveis, mas com significados secretos. As preces era mais do que aquilo que era pronunciado, mas uma espécie de fórmula que funcionava por possuir partes do “nome”. Por outro lado, o tetragrama não era mais central.

Nos escritos de Chayim Vital, o “nome de D’us” é parte dos mais sagrados mandamentos. Profanar o Nome é algo que gera a necessidade de purificação constante da alma. O Nome deve ser venerado. Paradoxalmente, nos estudos de Vital, o Nome também é apresentado como “os 72 nomes de D’us”, em permutas sobre textos da Torah. E o Nome pode ser usado como ferramenta mágica. A pronúncia correta de cada um dos 72 nomes tem é suficiente para gerar alterações na textura da realidade.

“Nome”, a partir dos Baal Shem, passa a não ser entendido literalmente. “Nome” passa a significar algo como “forma de se relacionar com o mundo”. Um conceito filosófico. Assim como um nome social ou um apelido, o nome altera a forma com que uma pessoa é vista pelos outros. Logo, o “nome de D’us” altera a forma como D’us é percebido em cada contexto. A partir de cada Nome, é possível acessar, capturar, vislumbrar a essência de um aspecto distinto de D’us.

Mas isso é historia para outra hora.

Shlomo ben Avraham Avinu

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